Nomeado a 4 Óscares, incluindo Melhor Filme, “Bugonia” junta Yorgos Lanthimos a Emma Stone pela quarta vez consecutiva.
Lembro-me de ler algures uma reflexão de um sociólogo que dizia: “se um macaco acumulasse mais bananas do que pudesse comer, enquanto a maioria dos outros morresse de fome, os cientistas estudariam aquele macaco para descobrir o que se estaria a passar com ele. Quando os humanos fazem isto, nós colocamo-los na capa da Forbes“. Para Teddy Gatz (Jesse Plemons), um dos protagonistas de Bugonia, a única explicação para este fenómeno seria que estas pessoas são, na realidade, extraterrestres.
É com a premissa de que Michelle Fuller (Emma Stone), diretora executiva de uma grande farmacêutica, é um ser alienígena oriundo da galáxia de Andromeda que Yorgos Lanthimos trabalha a sua mais recente longa-metragem. Por esta altura, o cineasta já “habituou mal” os seus fãs com três anos de lançamentos consecutivos, o que nem sempre abonou a seu favor no que toca à receção calorosa do público. De um modo geral, Bugonia marca o retorno aos moldes familiares dos seus primeiros filmes, fugindo à tese feminista surrealista de Poor Things (2023) e ao divisivo, ainda que ameno, Kinds of Kindness (2024).

A produção volta-se para um microcosmo americano mais pequeno, para um par de jovens adultos, um tanto lunáticos e à margem dos olhares da sociedade, que vivem de teorias da conspiração para explicar os porquês da sua situação pessoal e social precária. O já mencionado Ted é das personagens mais complexas que passou pelas mãos de Yorgos, não fosse pela total entrega ao papel por parte de Plemons, naquele é a melhor atuação da sua carreira. Embora esta afirmação se tenha tornado um lugar-comum a cada novo projeto que entra desde The Power Of The Dog (2021), e a bem dizer, ótimo, pois significa que a fasquia tem sido superada filme após filme. Acreditando não ter sido fácil o desafio da atuação de Plemons, que entrega uma intepretação carregada de uma lógica ilógica de um conspiracionista americano, cheio emoções e dores válidas.
Só posso torcer para que Yorgos continue a colaboração com o ator, e que faça o mesmo que fez com Emma Stone, ao retirá-la, entre outros, dos filmes mainstream de hollywood, para desvendar o seu grande potencial enquanto atriz. Falando nela, o que poderia ser vista como atuação, cujo papel estaria lá somente para servir de antagonista ao propósito distorcido de Ted, o desenrolar da obra, prova que a CEO se torna progressivamente, também ela, uma das protagonistas de Bugonia. Stone nos filmes de Yorgos é exponencialmente versátil e digna de destaque, mesmo que isso comprometa algumas das cenas mais tensas, bem como o momentum da narrativa. Quase como se existisse, em cena, uma duelo invisível entre ambos os atores, para elevarem, respetivamente, as suas atuações, um em cima do outro. Ambos contribuem com personagens que projetam Bugonia para ser um dos melhores filmes do ano que passou.

Voltando à história, esta vive da antecipação, vive das ações de Ted. Uma vez que os dados são lançados logo de início, com o conflito a desenrolar-se numa espiral caótica, quase toda ambientada na casa dos dois primos apicultores, enquanto que têm Fuller, a suposta Andromeda, cativa no subsolo, e sujeita a todo o tipo de tortura. Uma dinâmica rara nas obras que correm. Com poucos recursos narrativos, conseguem aprofundar de tal forma, uma crítica social, que outros no seu lugar, provavelmente fariam um espetáculo visual e sem qualquer nuance, tal como uma mão cheia de títulos de ficção científica que fomos brindados nos últimos anos, entre Don’t Look Up (2021)..
Lanthimos aposta a maioria das fichas, com sucesso, no argumento, este que, só tive conhecimento a posteriori, se tratar de uma releitura moderna e adaptada, de um filme coreano de 2003, de Jang Joon-hwan. O presente cineasta traz toda uma bagagem política contemporânea para fazer de alvo, sob o mote de crítica, o capitalismo, ainda que revestido de uma mensagem ecológica, tal como no argumento do filme base original. É aqui que entra em jogo, a frase que comecei esta crítica, Yorgos à luz de uma sociedade cada vez mais desigual, vê no seu personagem Ted, um reflexo do individuo, que esgotara todas as hipóteses racionais de interpretar uma realidade económica e social hostil, para ser levado para os confins das teorias reptilianas mais absurdas. O cineasta fá-lo um tanto aos moldes, com as devidas distâncias, de um They Live (1988) de Carpenter, mas com uma diferença crucial: enquanto que Carpenter, nos dá a confirmação da cabala das elites de forma imediata, aqui paira uma dúvida constante, presa à reviravolta final.

Esta dúvida que faz-nos, inclusive, pensar que a visão de Ted tem algum nexo, do tão distópica se tornou a nossa realidade, só uma explicação tão absurda e mirabolante poderia fazer sentido afinal. Até certo ponto, poderíamos considerar que Yorgos nos colocaria perante a situação, a seu jeito, de uma nova versão de Invasion of the Body Snatchers (1956), no entanto, o estilo do realizador vem ao de cima, e uma metáfora nítida, torna-se um exercício de reflexão, naquele que acho uma das formas mais criativas e inteligentes, dos últimos tempos, de se olhar o capital no cinema, enquanto falha de um sistema ecónomico que, para Ted e o seu primo (Aidan Delbis), só pode ser fora desta Terra.
Bugonia vive e consegue ser visto, ainda assim, solto da substância política, enquanto um thriller, de rapto, com um psicopata à solta, por si só sólido. Ainda assim, o próprio final goza jocosamente com as expectativas do espetador. Este é talvez dos pontos que mais me divide sobre Bugonia, apesar de ter adorado passar cada segundo com estas personagens. A reviravolta quase que contradiz, de certa maneira, com a crítica sempre presente do filme, e isso deixa-me dividido. Pese embora o facto de conseguir apreciar o filme em ambas as medidas, com ambos os focos distintos do filme. Se Yorgos tivesse levado em frente a sua ideia inicial, esquecendo o twist, acho que teria gostado mais do resultado final, por muito que isso não resultasse num filme tão marcante, como acabou por ser.
Dito isto, Bugonia é, sem qualquer hesitação, o meu filme predileto da temporada aos Óscares, e com certeza, também o é, do ano de 2025. Não é fácil, uma obra, um tanto simples no papel, deixar-me tão absorto e reflexivo logo que começam a correr os créditos. Acredito, que há uma certa corrente de obras, seja de forma intencional ou não, a falar dos mesmos temas e ideias a comunicarem entre si, apoiando-se no estilo único de cada um dos realizadores que lhes dão vida. Bugonia encontra-se justamente lado a lado com Eddington de Ari Aster, One Battle After Another de PTA ou Mickey 17 de Bong Joon Ho, para mencionar alguns, como obras que colocam em xeque, com algum humor negro e/ou exageros, a distopia coletiva que vivemos. Bugonia, é por isso, uma das longa-metragens essenciais para se entender esta década, onde uns macacos padecem por falta de comer, enquanto outros esbanjam ostensivamente em capas de revistas.
