“Alpha” estreou no Festival de Cannes e teve uma breve passagem pelos cinemas no Halloween, mas já está a chegar ao video on demand.
O que confere força ao cinema, para mim, é o quanto as personagens e os temas representados através dos mesmos falam connosco a um nível profundo e pessoal. Admitidamente demorei muito tempo a escrever esta crítica e acho que isso só fez bem, o filme marinou, mais do que na minha cabeça, debaixo da minha pele, dentro de mim. Alpha, o terceiro filme de Julia Ducournau, é possivelmente o seu filme mais arriscado e mais difícil de digerir até hoje, mas é também por isso que perdura tanto após o rolar dos créditos.
As relações familiares tão presentes na obra de Ducournau, também aqui são vividas com intensidade. Esse fervilhar de emoções entre Alpha, a sua mãe e o seu tio, Amin, é transmitido através de várias cenas que assumem um tom mais surrealista e metafórico, ao fazer paralelos temporais e geracionais, por exemplo.

É também através desse estilo surreal que os temas do filme são explorados. Além de Alpha construir uma óbvia metáfora com o vírus VIH, acabamos por estabelecer algumas ligações com a recente pandemia da covid-19, naturalmente, por a termos vivido tão recentemente e de forma tão intensa. Uma mistura de paranoia e medo e a forma como interagimos e reagimos a essas emoções tão fortes.
O que nos prende de forma exímia aos temas que são explorados é, além do fantástico trabalho de câmara, as atuações. Mélissa Boros, Tahar Rahim e Golshifteh Farahani carregam o peso do mundo às costas durante todo o filme e se não fosse cada um deles, eu não iria ser capaz de me ter agarrado ao filme emocionalmente. A cada cena e interação entre eles sentimos aquilo como realidade. O desespero e impotência de estar sob a alçada de uma pandemia tão fatal com a que é retratada em filme passam a cada microexpressão.
Na minha opinião, o filme termina de uma forma perfeita. Não haveria melhor forma de nos fazer refletir, e quanto mais penso, mais sinto que o filme explora imenso no amor familiar e no luto. Golshifteh Farahani ancora ambos os sentimentos nas interações que tem com a filha e com o irmão. Há ali amor, mas também há uma dor tremenda. São duas emoções que, normalmente, andam de mãos dadas. O amor expõe vulnerabilidades nossas, como tal, torna-nos um alvo fácil da dor. Se queremos um, temos de estar prontos para viver o outro também. Alpha parece-me uma bela reflexão nessas complexidades tão caracteristicamente humanas.

No fim do dia, eu prefiro sentir a perceber, e apesar de o filme não ser fácil de descodificar, dada a sua natureza mais surreal, no fim de tudo ele fez-me (e ainda faz) sentir. Através das suas imagens marcantes, que usam o body horror, não para o choque, mas para transmitir uma mensagem importante, como as diversas imagens de corpos infetados e dilacerados pela doença, e através das suas personagens que comunicam emoções de forma eficaz e afetam o espectador.
Tal como maioria das peças surrealistas que vi, acho que Alpha é um filme que vai crescer em mim (aliás, já está a acontecer), pode ser um pouco assoberbante ao início, mas, com o tempo somos capazes de assimilar as emoções transmitidas de forma pouco convencional e, portanto, mal posso esperar para voltar a ver o filme, de preferência, em tela.
