O Raio Verde (Le rayon vert) de Éric Rohmer provoca a nostalgia da Nouvelle Vague, 40 anos depois.
Há algo de curioso em The Green Ray (UK)/Summer (US)/O Raio Verde (PT), de Rohmer, pois apesar de ter sido lançado em meados dos anos 1980s, e do nome do cineasta ser já à época, conhecido e estabelecido no circuito cinéfilo internacional, a verdade é que o filme tem muito das bases fundacionais do autor. É um retorno em forma à nouvelle vague.
Durante todo o seu desenrolar somos relembrados disso constantemente: as paisagens coloridas francesas, o realismo da vida ativa das pessoas que transitam como se de um documentário se tratasse e, claro, a luz natural. Todo este pacote transforma “Le rayon vert” numa experiência quasi cápsula do tempo, para quem viu há quarenta anos, e especialmente para quem vê aos olhos de hoje, longe de toda a nostalgia do fim catártico desse movimento do cinema francês, oriundo trinta anos antes ao lançamento desta longa-metragem.

Mais uma obra que aposta na simplicidade, e onde o segredo está nos detalhes, no que ficou por dizer e nas meias palavras. A contemplada da vez é a jovem perdida, Delphine (Marie Rivière), um prato cheio de idiossincrasias, e o experimento perfeito nas mãos de Rohmer. Esta atriz viria a ser a musa, da fase de maturidade, do cineasta, atuando na maior parte dos seus filmes seguintes, que marcariam a última etapa da carreira do realizador.
Voltando à personagem propriamente dita, Delphine é nos apresentada, logo de partida, como alguém difícil de decifrar. Deduzimos que a jovem via no anterior relacionamento um ponto de ancoragem emocional e que agora sem a sua presença, fica à mercê do olhar voyerista de Rohmer. Delphine deambula pelos caminhos mais belos que as estradas, praças e praias francesas têm a oferecer. Mas nada parece saciar um qualquer vazio, logo quando o verão chegou com todo o seu vigor.

Amigas e conhecidos tentam interpretar e estimular Delphine a abrir horizontes, a dar-se a conhecer a novos potenciais interessados, mas em vão. Seguimos um verdadeiro roteiro rohmeriano do mais imaculadamente encantador que a França de 1980s tem para seduzir um qualquer espírito jovem à procura de se entreter em tempos de solo e calor.
Aos poucos, Delphine aparente querer dar um passo em frente, mas inadvertidamente, dá dois para trás, como se de um animal perigo, que recorre a esconder-se numa carapaça se tratasse. Há um senso de urgência na narrativa, por todos os terceiros envolvidos, em tentar esboçar um sorriso e uma aproximação genuína por parte da jovem parisiense.

Há algo de mais profundo do que somente um qualquer preenchimento de um vácuo, por parte de uma figura masculina, Delphine está na realidade a rejeitar ativamente qualquer potencial abordagem do sexo oposto, por não o ver como genuíno e fora do prisma de segundos interesses.
A câmara consegue capturar um sentimento de solidão, por vezes confusa com isolamento, de grandes espaços vivos de vida solarenga, e Delphine ao centro, pequena e perdida. Quase que podíamos estar na presença de uma qualquer tragédia do panteão da mitologia grega, mas, Rohmer redime a sua protagonista, ainda que com um potencial parceiro romântico, sobretudo, através dos símbolos e mensagens, repletos em toda a obra.

Há cenas essenciais para compreender o outro lado do espelho da aparente simplicidade desta nouvelle vague. Quando Delphine, na praia, troca impressões com outra jovem, loira, descontraída, e de peito descoberto. Torna-se evidente a antítese que Rohmer quer apresentar.
Enquanto que esta última revela-se ao mundo, de forma literal, abordando os rapazes que acha atraente, metendo conversa, apontando e comentando tudo da maneira mais explícita possível, Delphine tenta contrapor mantendo-se sempre na defensiva, e aí vemos o que poderia ter sido uma outra versão da parisiense. Mais tarde, quando um grupo de senhoras discute abertamente sobre a obra literária, de mesmo nome que o filme, de autoria de Jules Verne, compreendemos de onde vem a inspiração para o título desta película.

“Le rayon vert” enquanto fenómeno atmosférico ocorre, no horizonte, na ausência nuvens, sendo necessário uma boa dose de sorte para ser observado. No filme, este elemento torna-se o norte de esperança de Delphine que acredita que tal acontecimento poderá servir de sinal para confirmar a sua tese romântica.
Por sinal, este momento é outro que casa com a premissa de se tratar de um filme encaixado na fase final da nouvelle vague, no sentido, em que o cineasta em modo tentativa e erro, procurou capturar com a maior naturalidade possível, o efeito do Raio Verde. Ajudando a fechar com chave de ouro toda a experiência de um filme, como um sonho de verão na costa francesa.

“Le rayon vert” enquanto filme é, como referi, uma cápsula do tempo para um realizador nostálgico por um movimento por si fundado, trinta anos antes, buscando todos os elementos que tornam a França, mais especificamente Paris, como o palco ideal para esta obra ganhar vida.
Delphine representa essencialmente a resiliência em procurar por um relacionamento sincero, por mais que todo o ambiente e envolvidos a puxem para um mundo de aparências felizes mas fugazes e sem sentido aparente. De certo modo, e especulando da minha parte, Rohmer poderia muito bem com este filme, ter feito o seu testamento definitivo ao movimento já referido, um manifesto artístico onde, por mais que dure um segundo que seja, vale a pena esperar e lutar por aquele raio verde no final do horizonte.

