Nomeado ao Óscar de Melhor Filme Internacional, “The Voice of Hind Rajab” é um dos filmes mais emocionantes e frustrantes do século XXI.
O ponto mais alto do cinema é sentirmos que a obra está acima de qualquer palavra, qualquer descrição. A frustração que eu sinto a tentar escrever sobre “The Voice of Hind Rajab” é sinal de que no ecrã foi passado um sentimento transcendente. Uma emoção que nos assola de forma destrutiva, damos por nós sem sítio onde colocar tudo o que sentimos. Posso escrever páginas a fio, o sentimento de impotência não desaparece. Enquanto escrevo, pessoas continuam a morrer em Gaza. Seja a fome, seja em tiroteios.
A única esperança é que o texto chegue a alguém que desconheça a realidade do que se passa e que o acesso ao filme faça essa pessoa consciente do mundo ao seu redor. Infelizmente, desconfio que o filme chegará apenas àqueles que já não precisam de o ver.

“The Voice of Hind Rajab” é uma obra frustrante, mas extremamente importante. Hind tinha seis anos e encontrava-se numa viatura com os tios e os primos que fora baleada mais de 300 vezes por um tanque do exército israelita. Sobreviveram Hind e Sara, inicialmente, e ainda que tenham conseguido contactar a Sociedade Crescente Vermelho Palestiniano para pedir socorro. Num segundo tiroteio, Sara acabaria por perder a sua vida. No filme ouvimos as chamadas reais que Hind estabeleceu com a Sociedade nas horas seguintes, enquanto as cenas nas centrais de apoio são reconstituídas por atores palestinianos.
Vi o filme no festival LEFFEST, em Lisboa, e o ambiente vivido no Cinema São Jorge foi algo com o qual eu nunca me tinha deparado antes. Silêncio absoluto, apenas interrompido pelo fungar e soluçar de choro compulsivo de um auditório cheio. À saída, não houve palavras, não houve discussão. É inútil discutir formalidades com um filme destes, não importa o plano, angulo, cor, ator, nada. A dor é o foco.

No fim do dia, onde ponho essa minha raiva? Neste texto talvez. Estas palavras estão a ser usadas como recetáculo do que sinto, que agora surge novamente, já algum tempo depois de ver o filme. Tal como “No Other Land”, que saiu o ano passado e o “20 Days in Mariupol”, em 2023, The Voice of Hind Rajab usa o cinema como arma. Não é para gostar, é para divulgar e expor tudo aquilo que é muitas vezes fintado pelos média tradicionais. Não sei se servirá de algo. “No Other Land” e “20 Days in Mariupol” ganharam os óscares de Melhor Documentário, tal como muitos outros prémios ao longo dos respetivos anos.
Sangue não deixou de ser derramado, e infelizmente, acontecerá o mesmo agora, mas não nos resta mais nada do que se não tentar. Usar a arte como um meio de contagiar uma sociedade apática perante atrocidades que acontecem há dezenas de anos e que têm de parar.

É pegar neste sentimento de imponência e procurar caminhos. Filmes destes não deveriam existir pois são o produto de uma sociedade suja, mas são mais precisos do que nunca. E ainda bem que existem. Eu acredito muito do espírito humano e é esse espírito humano que permite fazer armas como “The Voice of Hind Rajab” e enquanto assim for, acredito que a bondade e os bons valores da humanidade poderão prevalecer. Não podemos é deixar de lutar.
