Da última vez que o nome Chloé Zhao andou em voga, estávamos ainda sob o manto do COVID, numa época em que a realizadora chinesa havia caído nas graças da crítica e do público com a crítica social, de Nomadland (2020) e rapidamente caído em desgraça aquando do controverso The Eternals (2021).
Passados estes anos, não posso dizer que tenha sentido saudades da mesma, mas assim que soube que o seu próximo projeto era sobre Shakespeare, fiquei alerta, embora o tenha colocado no fundo da gaveta de filmes que teria interesse em ver. Mais recentemente, a propósito do embalo, e de toda a consideração que o filme recebeu nos Globos de Ouro, deixei a minha curiosidade levar o melhor de mim, e fui vê-lo.
Hamnet apresenta-se como uma adaptação de um livro de mesmo nome que, tentar reinterpretar ou melhor, re-contextualizar, com muitas aspas de liberdade criativa, uma possível origem artística da peça de teatro, Hamlet. Zhao goza de uma certa posição favorável para executar esta visão, na medida em que a origem e percurso do próprio Shakespeare é envolta de incertezas. À primeira vista, confesso que pareceu uma decisão demasiado cheesy (por falta de melhor palavra), em criar a correlação entre a morte trágica do seu filho com o nascimento da obra do príncipe da Dinamarca.

Só mesmo aquando da reta final de Hamnet é que, a ideia repousou em mim, e consegui digerir, ao pensar melhor nele, tudo aquilo que havia visto até então. Embora seja favorável a considerar que Hamlet transcende em muitos patamares o pódio do património cultural ocidental, para ter uma correlação tão direta e redutora entre vida e obra, sou lembrado que a arte é profundamente humana, e que motivo mais nobre e trágico, que a perde de um filho, como motor criativo para inspirar o bardo inglês. Dito isto, Hamnet não é apenas um filme construído para justificar a tese de Zhao, e em boa verdade da autora do livro, é muito mais do que isso.
Na verdade, eu iria tão longe para dizer que a verdadeira protagonista do filme é a mãe, Agnes (Jessie Buckley), na sua jornada de luto e superação, e creio que está longe de não ser um consenso. A atriz consegue de forma efetiva tirar as atenções do contexto, e do próprio mito e presença de Shakespeare, e elevar-se enquanto a estrela e cordão humano de Hamnet. Uma espécie de catarse quando, por exemplo, olhamos para o papel de Ophelia em Hamlet, a musa do protagonista, que é totalmente secundarizada e, na verdade, um meio para um fim.
Aqui, há uma narrativa profundamente feminina e maternal em jogo, que nos encanta e faz sonhar num qualquer significado cruzado entre o nascimento, a morte e a natureza. Creio que as premiações têm feito o devido trabalho em reconhecer tamanho talento, verdadeiramente hipnotizante, de Buckley.
Não esquecendo Paul Mescal, que, para mim, ainda que longe de capturar o que outras versões acertaram ao nível do retrato psicológico complexo de Shakespeare, entrega um bom papel nos momentos em que está em cena com Buckley, funcionando melhor como parte de um todo, do que individualmente.

A fotografia do filme é quase que uma personagem em si também, tentando puxar por aquilo que associamos no imaginário coletivo, e no que vemos nas artes associadas a peças de Shakespeare, nomeadamente Hamlet. Dando prioridade ao realismo e rusticidade dos cenários, sempre com a natureza à espreita, que conjugou bem com a escolha do cinematografo, Lukasz Zal, que me remeteu aos cenários verdes, do seu trabalho em The Zone of Interest (2023).
Cheguei com uma postura um tanto cínica, e embora tenha saído bastante satisfeito (e emocionado), confesso que Hamnet tem um problema gritante de colocar tudo explicitamente na cara do espetador, não há qualquer nuance na forma como expõe as suas analogias e símbolos, é tudo excessivamente mastigado, e quase que fez pensar que o filme fora pensado, para o exato momento em que se encontra, rodeado de prémios e na boca do mundo, perdendo qualquer tentativa genuína de engradecer o filme. O que me levou a pensar, agora mesmo, se Zhao não ficara um tanto traumatizado, por colocar demasiado de si nas suas últimas obras, e tentou entregar uma experiência o mais palatável e consensual possível.
Dito isto, Hamnet pode ser observado por múltiplos pontos de vista, e embora o tenha visto na perspetiva de pessoa que tem uma ligação à obra de Hamlet, e que por isso, tento fazer os devidos paralelismos, acredito que a visão mais aceite, enquanto uma história pesadamente sentimental e emotiva, seja um prato cheio para quem procura um filme dramático na medida certa, e não necessariamente um romance, como o vi ser vendido, em parte. Um pai, ou uma mãe, verá sempre este filme com outro olhar, que sou incapaz de relatar ou descrever por palavras, e espero que sejam estes os futuros espetadores de Hamnet, aquando perda inevitável dos holofotes, e for lembrado como um dos melhores filmes desta década.
