Nomeado ao Goya de Melhor Filme, “Sentimental” é uma comédia romântica espanhola que vale a pena descobrir.
Um casal vive no seio de uma relação hostil. Com vista a quebrar a rotina, acaba por receber os vizinhos do andar de cima para jantar. Todavia, existem vários segredos e tabus entre eles que, se forem abordados, prometem gerar momentos constrangedores e hilariantes. “Sentimental”, a sétima longa-metragem de Cesc Gay – um dos mais importantes cineastas da cena espanhola atual – é a adaptação cinematográfica de “Los vecinos de arriba”, uma peça homónima que chegou aos palcos em 2016.
Quem é que nunca teve um encontro constrangedor com vizinhos no elevador? Um espaço pequeno demais para evitar o desconforto de estar perto de uma pessoa quase desconhecida, que nos empurra para conversas absurdas ou silêncios iminentes. No entanto, por vezes, o espaço não é o verdadeiro problema quando se trata de situações desconfortáveis. Assim, no novo filme de Cesc Gay – nomeado aos Goya 2021 nas categorias de Melhor Filme e Argumento Adaptado – o enredo desenrola-se na linha teatral de um único palco.

Este tipo de filme, com personagens retratados em torno de um único cenário, é recorrente na comédia negra ou sarcástica. Em 2011, Roman Polanski deu a conhecer “Carnage” onde, na mesma linha, dois casais reuniam-se num apartamento para discutir um tema fraturante, chegando a níveis extremos de diálogo. Mais recentemente, Sally Potter fez o mesmo em “The Party”, aumentando o número de casais em cena. Desta feita, por ocasião da pandemia de COVID-19, onde a redução das equipas foi obviamente acentuada, o drama também encontrou um nicho nesta abordagem, como se viu em “Malcolm & Marie”. Em suma, é um estilo de filmografia muito recorrente quando se trata de lidar com questões delicadas, o, que, por conseguinte, apela à construção de personagens que funcionem como verdadeiros pilares da narrativa.
Cesc Gay já tinha abordado questões tão transcendentais como a amizade em “Truman”, uma longa-metragem que lhe valeu 5 prémios Goya. Desta vez, em“Sentimental”, volta a trabalhar com Javier Cámara, ator que encarna Julio, o retrato mais superlativo da insegurança mascarada de sarcasmo. A seu lado, destaca-se Griselda Siciliani, que interpreta Ana (a mulher de Julio), cuja performance valeu à atriz a nomeação ao prémio revelação no Annual Academy Awards.

Neste filme, o realizador expõe os problemas do casal, que acaba por receber a visita dos vizinhos com o intuito de se conhecerem para lá dos encontros breves e desconfortáveis no elevador. Se adicionarmos à tensão de um jantar entre pessoas que não se conhecem muito bem o tema principal da conversa, isto é, sexualidade, cria-se uma combinação explosiva que pode terminar em orgasmo, ou em catástrofe.
Gay é capaz de construir um filme fácil de acompanhar, mas que, ao mesmo tempo, é convidativo a manter o público numa montanha russa de emoções do desconforto ao riso. Ele demonstra a capacidade de juntar personagens numa conversa de forma tão realista que, a dada altura, é difícil não nos sentirmos ambientados na sátira apresentada. Na verdade, a conversa acaba por conduzir a um tema de conflito que não parece muito apropriado dentro do sistema estabelecido para um primeiro jantar entre vizinhos. Tudo isto, fornece o ingrediente exato para se poder saborear o filme, bem como as suas nuances, sem sentir um gosto agridoce na boca. Humor ácido e a cumplicidade acrescida, que é perfeitamente canalizada pelas interpretações bem sucedidas de Belén Cuesta no seu papel de Laura e Alberto San Juan como Salva.

Já se sabe que nunca é fácil criar um filme sobre temas tão comuns como amor e sexo sem cair em clichés, e parece-me que Cesc Gay, com o auxílio do excelente trabalho do elenco, consegue apresentar algo arrojado, com um sarcasmo primoroso e uma gama de assuntos a ponderar. Porque, tal como não existe um manual para se fazer um filme perfeito, ou ser o vizinho perfeito, também não existe um manual para se ser o casal perfeito. Porque talvez não se trate de ser perfeito ou de cumprir uma série de estereótipos, ou de não os cumprir, de ser mais liberal ou mais conservador, mais moderno ou mais tradicional, mas simplesmente de dar primazia à comunicação e ao respeito. E não quer dizer que o espaço para conversar seja maior ou menor, numa sala ou num elevador, porque não é o palco que importa, mas as pessoas que o ocupam.
“Sentimental” sabe ver as pessoas por trás das camadas de angústia que foram auto-impostas, que o sarcasmo pode camuflar a dor e que procurar a perfeição é, como em tudo, uma caixa de pandora. Este filme é exatamente o que pretende ser: embora não chegue para revolucionar o sistema, consegue entreter. E não duvido nem por um segundo que a experiência se revelasse ainda melhor, caso pudéssemos conhecer esta história por intermédio do teatro.
“Sentimental” encontra-se disponível em video on-demand.
