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Les années Super-8 – Crítica Filme

A tinta dá lugar a uma lente, e a leitura ao som de um projetor

by João Pedro

Co-realizado pela própria Annie Ernaux junto do filho David Ernaux-Briot, “Les années Super-8” é um documentário familiar cativante.

Há algo de mágico, até de místico se preferirem, na experiência cinematográfica. Se as fotografias captam a impressão de um momento, os corpos que vemos fluir no ecrã estão vestidos de imortalidade. A passagem do tempo não pode vencer essa magia, nem mesmo a morte. E é precisamente a morte que é derrotada no espaço de um filme amador, de imagens domésticas que, por pura diversão, se tornam portadoras de nostalgia e porta-vozes de rostos perdidos, espaços desaparecidos, ambientes retidos apenas nos interlúdios da memória.

Conhecemos o nome de Annie Ernaux através do poder das páginas que lhe permitiram ganhar o Prémio Nobel da Literatura em 2022. Não obstante, recentemente, a escritora decidiu também entrar no mundo do cinema, através da partilha íntima do seu próprio arquivo de filmagens amadoras.

Em “Les années Super-8”, Ernaux rompe com a partilha simples da auto-referência aos tempos perdidos para falar num idioma mais universal. Partindo de acontecimentos pessoais, o documentário torna-se uma galeria de momentos e de estímulos reflexivos sobre o poder de um olhar mecânico capaz de captar o coração de um momento, ou o espaço de um ambiente, para o inserir no templo da imortalidade. Desta feita, a esfera pessoal sacrifica-se diante do altar do olhar alheio para aniquilar o escudo do tempo e aprofundar o poder das proposições visuais – destinadas a reavivar a semente da memória e, com ela, de uma felicidade escondida sob a poeira de anos que já lá vão.

© ARTE

Em 1972, Annie Ernaux e o seu marido, Philippe, têm trinta e poucos anos e vivem na cidade de Annecy com os seus dois filhos de sete e três anos, Eric e David. A dada altura, decidem comprar uma câmara Super 8, sendo que Philippe começa a filmar cada momento das suas vidas e das suas viagens. Do Chile, para Marrocos, via Albânia, Inglaterra, Córsega, Espanha, para Portugal e Rússia. Aapós a separação dos dois no início dos anos 80, estas imagens permaneceram invisíveis durante muito tempo, até serem resgatadas pelo filho David. O resultado é um documentário íntimo e acompanhado pela voz crítica e anti-descritiva da própria Annie.

Ao confiar a sua natureza ao jogo de edição mais simples, a obra vive da união e da sequência cronológica de filmagens recuperadas do arquivo familiar para a elevar ao património visual universal. Por detrás de cada ligação e a operação básica de cortar e colar, há um discurso introspetivo sobre o poder da recordação confiada às imagens, e sobre a forma como uma ação mecânica como a gravação de um momento, vive como testemunho histórico de um momento – ou paisagem – que nunca mais voltará.

A natureza poética da prática das memórias reencontradas, acompanhada pelo poder de um comentário tão intenso e profundo como o que é oferecido pela própria voz-off de Ernaux, torna-se um ensaio onírico sobre o poder de um meio tão vulgar como o rebobinar de uma Super 8, que se torna a guardiã de descrições infinitas de um momento fugaz, revelador de partes de mundos colocados à beira do esquecimento e da mudança.

Uma simplicidade de representação tão plena de humanidade e mesmo de profundidade filosófica, que se adapta perfeitamente, até ao ponto de a reduzir noutras línguas, ao código estilístico de uma caneta intensa e introspetiva como a da própria escritora; um estilo onde a fronteira entre o privado e o público se torna confusa, e cada pensamento se torna um elemento a ser partilhado para se tornar de todos, tal como as palavras impressas numa página, ou um rosto impresso num filme.

© ARTE

Shakespeare dizia que o mundo é um teatro, e todos nós somos apenas atores. Os imortalizados pela Super 8 de Philippe Ernaux são então membros de uma família disposta a desaparecer do seu papel social para assumir inconscientemente o de um intérprete perfeito dentro de um espetáculo mudo.

As imagens tornam-se postais de um mundo que já não existe; são testemunhos comoventes de países mudados, impressões em filme de momentos e memórias que, de outra forma, desapareceriam, perdidos no espaço de um momento, ou num piscar de olhos. Armazenadas na memória e imortalizadas em filme, estas gravações vão além das lembranças de viagens em família; tornam-se partilha universal, quiçá um atlas. Paisagens naturais ainda inocentes e imunes à passagem do cimento: cada cenário, ou plano único, é um olhar impressionista de momentos em formação.

Mas por trás do simples fluxo de imagens existe também um diário secreto de pensamentos traduzidos em memórias comoventes; cada fragmento surge como uma porta aberta para sentimentos infinitos guardados em Annie. Ela, a mulher criada com o ideal de igualdade de género que enfrenta o peso do papel de educadora e esposa perfeita ao longo da costa da Córsega; ela, a jovem mãe que prefere fechar-se no quarto às excursões, entre um livro para ler e outro para escrever. O resultado é uma lacuna que transparece daquele olhar baixo captado pela câmara do marido. Um olhar que se torna uma caneta pronta a escrever nas páginas de um romance cinematográfico impregnado de memórias em movimento, e imagens imortais, onde a tinta dá lugar a uma lente, e a leitura ao som de um projetor.

E o verdadeiro objetivo da minha vida é, provavelmente, apenas este: que o meu corpo, as minhas sensações e os meus pensamentos se transformem em escrita, isto é, em qualquer coisa de inteligível e comum – a minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.” – Annie Ernaux, in “O Acontecimento”.

“Les années Super-8” encontra-se disponível na Filmin e em video on demand.

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