Esta não é a primeira vez que a Netflix conta a história sobre uma judia ortodoxa que encontra uma maneira de fugir à sua comunidade hassídica. Em documentário, “One of Us” ofereceu uma perspetiva curiosa sobre a vida de uma comunidade e o impacto que pode existir se alguém desejar quebrar as regras. “Unorthodox” não é um documentário, mas é uma história baseada num livro de memórias de Deborah Feldman.
“Unorthodox” gira em torno de uma personagem chamada Esty, que cresceu numa comunidade hassídica que segue regras ultra-ortodoxas, ou seja, os casamentos são delineados previamente, não existem smartphones, é estritamente proibido consumir ideologias ocidentais como o YouTube, etc.
É uma comunidade muito restrita e o propósito da mulher é procriar. É uma comunidade esmagadora que cuida uns dos outros, porém, abandoná-la significa assinar um pacto com o diabo.
“Unorthodox” conta uma dessas demandas de fuga. No caso de Esty, a jovem encontra uma maneira de deixar Williamsburg, em Nova Iorque, e fugir para Berlim ao utilizar papelada da cidadania alemã. Ir para a Alemanha é um movimento altamente controverso, tal como se pode imaginar dado o contexto da História.
Esta é uma série que exige tempo e respeito, e não é uma história para assistir de ânimo leve numa tarde de domingo.

© Anika Molnar/Netflix
“Unorthodox” é dividida em três partes; uma delas conta o percurso de Esty em Berlim, onde a liberdade pode ser extremamente confusa e assustadora. As outras abordam o passado da personagem, sendo que, numa delas, é obrigada a casar com um judeu chamado Yanky.
Hoje em dia, existem muitas séries que apostam em cenas de flashback para dar uma exposição sobre acontecimentos passados, porém, a meu ver, poucas conseguem ter tanto sucesso como “Unorthodox”.
De forma sucinta, vemos Esty a aprender os caminhos da sua comunidade, a começar a nova vida de casada com Yanky e, por último, a conhecer uma nova realidade em Berlim. E todas estas histórias conseguem complementar-se perfeitamente com um tema diferente em cada episódio.
A série equilibra o passado e o presente de forma sensata, com cenas de liberdade a jogar de igual para igual com as de prisão social. De forma maravilhosa, demonstra a seriedade do risco de Esty partir e a forma como ela lida com a perspetiva de ser encontrada pelo marido.
A primeira sensação de liberdade por parte de Esty é feita com delicadeza. Não obstante, cada episódio é arquitetado com cuidado, ao garantir que o público entende a personagem e a evolução constante do seu mundo novo.

© Anika Molnar/Netflix
A série não teria sido possível sem as memórias de Deborah, mas também não teria atingido este resultado sem a performance convincente de Shira Haas.
A atriz foi ao extremo para retratar a personagem, ao permitir que a equipa de produção cortasse o seu cabelo por completo numa das cenas (algo que ela sentiu que deveria fazer para captar a emoção da história). Shira Haas olhou para o futuro – a sua representação maleável tocou-me.
“Unorthodox” conta uma história trágica de forma eficaz, enquanto junta temas e ideias que a tornam relevante. Não é perfeita, visto que a tensão poderia ter sido um pouco maior durante a parte intermediária dos episódios, mas são pontos menores no que, de outra forma, é uma série realmente bem escrita e representada com competência.
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