Estamos em 2025, desigualdades sociais e de género são cada vez mais evidentes e discutidas, este tipo de políticas estão cada vez mais sob o olho do público em geral e são cada vez mais desafiadas pelos grupos oprimidos por uma sociedade patriarcal. Como tal, e porque toda a arte é política e reflexiva da sociedade que os seus autores habitam, aparecem, muitas vezes, filmes com uma mensagem abertamente feminista, que contraria os padrões muitas vezes tóxicos e prejudiciais para quem não beneficia de um estatuto de poder e privilégio, para tentar combater o status-quo.
Neste ato político, o género do terror, mais especificamente o body horror, tem sido prevalente nesta década de 20 do século XXI com filmes como o “Titane” (Julia Ducournau, 2021), ou o “The Substance” (Coralie Fargeat, 2024), curiosamente o segundo filme de ambas as realizadoras francesas. Ambos jogam com os limites do corpo feminino e o sofrimento literal causado pelos padrões que eu falei no parágrafo acima. As duas obras são intensas do princípio ao fim, jogam com o desconforto e o choque do espectador e são minuciosas na exploração e análise dessas temáticas.

“The Ugly Stepsister” pode dizer-se ser um parente próximo dessas obras já mencionadas, o género é o mesmo e as temáticas tratadas são iguais e, como já devem ter percebido, adorei imenso esses filmes, portanto, a expectativa para este era enorme, tendo também em conta os murmúrios à saída da estreia do filme no festival de Sundance nos EUA. No fim de contas, sinto que saí do filme um pouco desiludido, vítima do rumo que o filme tomou e muito provavelmente das minhas expectativas.
Esperava um filme muito mais nojento e chocante, com gore constante e que me deixasse a um nível de desconforto ao nível a que estes tipos de filmes me habituaram. Infelizmente, não aconteceu. Depois de tentar calibrar as minhas expectativas, horas depois de sair do filme, atribuo isso a uma falha que senti na conexão entre mim e as personagens. Apesar de as performances serem muito boas e convincentes, não consegui desenvolver uma ligação emocional, nada nelas me puxou pela empatia ou capacidade de me relacionar. Também a simples escolha criativa de não ser um filme tão espalhafatoso como outros dentro do género, contribuiu para isso.
Agora, o filme não é, de todo, mau. A mensagem é forte e relevante, e é passada de forma eficaz. As cenas mais gráficas servem um propósito maior e contam como as mulheres são vítimas de padrões de beleza totalmente irrealistas e próprios de um conto de fadas. Irónico também, visto que “The Ugly Stepsister” é uma adaptação perversa e distorcida do conto da Cinderela, uma história popularizada pela Disney, mas que, anteriormente tinha sido escrita em 1697 por Charles Perrault e, mais tarde, pelos Irmãos Grimm em 1812.

O filme também explora a natureza “canibal” da sociedade quando impomos expectativas fúteis como a aparência física. As mulheres lutam entre elas para serem as mais belas, o que leva a situações limite, tudo porque o mundo as faz acreditar que assim têm mais sucesso. Situação que contrasta, no filme, com um apoio incondicional da irmã da personagem principal. Num filme tão bruto e sinistro, é de destacar a relação de irmandade que existe entre as duas irmãs, algo que me passou um pouco despercebido por entre o meu sentimento de desilusão, mas que agora é por demais evidente. Relação bela que puxa a união entre as mulheres para cima e que é transmitida quase como uma fórmula de sucessso.
É um filme com camadas para escavar, especialmente por todo o contexto político por detrás. Adorava que esta exploração temática tivesse sido acompanhada com um pouco mais de ligação emocional para mim, já que gostei muito mais de pensar sobre o filme e o que ele fez de bem e mal, do que senti o filme enquanto o estava a ver. Espero ver a minha opinião a subir mais sobre o filme, pois, apesar de ter gostado de o ver, queria mesmo tê-lo adorado.
Estreia dia 21 de agosto nos cinemas.
