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The Hand of God – Crítica Filme

by João Pedro

Numa altura em que “Parthenope” já está disponível no TVCine+ e com o próximo filme “La Grazia” a chegar este ano aos cinemas portugueses, regressamos a uma grande obra de Sorrentino. “The Hand of God”: O 10 que nos ofereceu um cineasta de excelência.

 “As minhas ideias pareciam tão claras. Eu queria fazer um filme honesto, sem mentiras de qualquer tipo. Parecia que tinha algo tão simples, tão simples para dizer; um filme que pudesse ser útil para todos, que ajudaria a enterrar para sempre tudo o que está morto dentro de nós. E, em vez disso, sou o primeiro a não ter coragem de enterrar nada”.

Estas palavras do alter ego por excelência de Federico Fellini, ou seja, Guido Anselmi de Marcello Mastroianni, descrevem perfeitamente “8½”. No entanto, aplicam-se também em parte a “The Hand of God”, o mais recente filme de Paolo Sorrentino. 

A obra mais íntima e pessoal de Paolo Sorrentino parte de um estudo semelhante ao do argumento de “8½”, baseado na adolescência do cineasta napolitano, nas suas paixões (em primeiro lugar, por Diego Armando Maradona) e nas suas dores, com a perda dos pais. Tal como Fellini, Sorrentino embarca numa viagem por memórias e sonhos, que se revelam fundamentais para a formação do artista que hoje é conhecido em todo o mundo.

© Netflix

A retratar Sorrentino (que, em “The Hand of God”, se chama Fabietto Schisa) está o surpreendente Filippo Scotti, capaz de delinear a timidez e a solidão do protagonista. A seu lado, temos Toni Servillo, que interpreta o pai de Fabietto, e os dois pilares da história – Teresa Saponangelo e Luisa Ranieri, intérpretes da mãe e da tia do jovem.

Pela primeira vez, Sorrentino concentra-se nos sentimentos canalizados pelas experiências que viveu, limitando ao mínimo os aforismos que distinguem as suas obras. Ao fazê-lo, não distorce o seu estilo inconfundível, visto que salpica a narrativa com inserções oníricas, imagens simbólicas e figuras enigmáticas. É, ao mesmo tempo, um Sorrentino diferente e igual a si mesmo, que também sabe brincar com o legado que está a construir e com o vício de se perder na estética.

Além das escolhas estilísticas e formais, o coração de “The Hand of God” está numa Nápoles apaixonada e brincalhona, contada também a partir de Maradona, que Sorrentino aproveita para adjetivar no início do filme como “o maior jogador de futebol de todos os tempos“. É a mão de Deus que dá título ao filme, símbolo de uma das jogadas mais famosas da carreira do jogador (o golo contra a Inglaterra no Mundial de 1986) e do papel que desempenhou no destino do próprio Sorrentino, que escapou ao acidente que vitimou os pais.

© Netflix

Ao invés de ter ido passar o fim de semana em família, numa casa que os pais tinham nos arredores da cidade, o jovem napolitano decidiu viajar até Florença, onde se esperava mais um recital de magia de El Pibe de Oro contra o Empoli. Trocar a companhia dos pais pelo ídolo salvou-lhe a vida porque, nesse fim de semana, uma avaria no sistema de aquecimento da casa dos Sorrentino provocou uma fuga de monóxido de carbono, vitimando os pais do realizador.

Uma figura recorrente no cinema de Paolo Sorrentino é a presença de uma personagem autoritária, que repreende tudo e todos com aforismos e humilhações. Não obstante, em “The Hand of God”, cada personagem é uma peça fundamental na criação de um quebra-cabeças único de amor e sofrimento. A simpatia e a doçura de Maria tocaram-me especialmente; visto ser uma mãe que consegue enfrentar e superar as desilusões vindas do marido.

Em adição, somos também enfeitiçados por Patrizia (a personagem mais Fellini de todas), que é ao mesmo tempo símbolo da sensualidade mais disruptiva e da fragilidade mais extrema, que se torna (e não é por acaso) a musa e a meta inalcançável do desejo de Fabietto. O universo sonhador de Sorrentino também inclui figuras à beira do paradoxo, como a irmã de Fabietto, que passa o tempo trancada na casa de banho, ou Armando, um motorista sem escrúpulos. São personagens equilibradas entre realidade e fantasia, perfeitas para uma história que potencializa o poder da imaginação, especialmente em relação a uma realidade muito difícil de enfrentar.

E é precisamente na adesão à realidade que Sorrentino consegue superar-se, ao encenar a morte dos pais com uma sinceridade e uma doçura extrema. Um ato de amor comovente que, previsivelmente, se torna também o momento flagrante de uma obra que evita a própria conclusão – ao acompanhar Fabietto nos primeiros passos em direção ao futuro.

© Netflix

Por conseguinte, “The Hand of God” torna-se também uma história de formação sentimental e artística, lançando as bases para o nascimento de um cineasta. Naquele VHS de “Era uma vez na América” (cuja visão é continuamente adiada por motivos de força maior), na teimosia de quem persegue o sonho de fazer filmes, mesmo que ainda não tenha a base, encontramos a mistura de obsessão, ousadia e ilusão que distingue todos aqueles que vivem uma paixão.

Realmente não tenho nada a dizer, mas, de qualquer maneira, quero dizê-lo“, declara Guido no auge da sua renúncia em “8½”. Ao contrário de Fellini, Sorrentino afirma perentoriamente que tem algo a dizer, ao exorcizar os fantasmas do passado (o acontecimento que mudou a sua vida para sempre) na conceção de um filme extraordinário. Aquele miúdo tímido e inseguro de Vomero, em Nápoles, ficaria orgulhoso.

“The Hand of God” está disponível na Netflix.

9/10

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