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Em “Once Upon a Time…in Hollywood”, Quentin Tarantino rema no sentido oposto à tradição, e concentra-se mais na narrativa coesa do que na estética da sua marca registada. O cineasta dedica-se a cada cena como uma curta-metragem; o ritmo é impecável e, por conseguinte, as performances são ímpares. 

este artigo tem spoilers

No pano de fundo do seu nono filme, Quentin Tarantino trabalhou em torno de um dos crimes mais perturbadores da América. O cineasta efetua um contraste entre as histórias fictícias de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), um ator, e Cliff Booth (Brad Pitt), o seu duplo, com o percurso de vida real da atriz Sharon Tate (Margot Robbie). 

Ao invés de recriar o trágico homicídio naquele verão de 1969, quando três membros do grupo de Charles Manson assassinaram Tate e quatro dos seus amigos na casa de Roman Polanski, Tarantino apresenta uma sequência alternativa dos acontecimentos; um comentário cerebral sobre a história de Hollywood, a cultura das celebridades e os mitos da indústria cinematográfica.

Em agosto de 1969, Tate estava grávida de oito meses e era casada com o cineasta Roman Polanski. Ela morava no número 10050 de Cielo Drive, onde Terry Melcher, produtor musical de Manson, residiu anteriormente. 

Depois de se mudar para Hollywood, durante o início dos anos 60, Tate ganhou impulso na carreira ao protagonizar “Don´t Make Waves” (1967), “Valley of the Dolls” (1967) e “The Wrecking Crew” (1968). Polanski começava a firmar uma posição de renome na condição de realizador, e com Tate a ganhar cada vez mais visibilidade à frente das câmaras, o casal era popular entre as celebridades de Hollywood, e era amigo de Steve McQueen.

Na época, Manson era considerado um cantor e compositor estranho mas talentoso. Ele e várias mulheres moraram com Dennis Wilson, dos The Beach Boys, durante vários meses em 1968, e foram apresentados a Terry Melcher, que produziu singles de sucesso para os The Byrds e Paul Revere & the Raiders. No verão de 1968, no entanto, o empresário de Wilson expulsou o grupo de Manson de casa. 

Posteriormente, Manson levou os seus seguidores para o Spahn Ranch, um local que costumava servir de cenário para filmes de Hollywood e séries de televisão. Durante esse tempo, George Spahn, o proprietário do imóvel, deu o apelido de “Tex” a Charles Watson, um jovem que também acabou por integrar o grupo.

Em março de 1969, Manson encontrou pela primeira vez Tate em Cielo Drive, e descobriu que Melcher tinha mudado de residência. Entretanto, no final da primavera, começou a levar a cabo um movimento chamado “Helter Skelter” – um plano para incitar uma guerra racial em Los Angeles.

No dia 8 de Agosto de 1969, Manson mandou Tex Watson, Susan Atkins, Patrícia Krenwinkel e Linda Kasabian a Cielo Drive, em Hollywood. Primeiro, Watson matou Steven Parent, de 18 anos, que estava a sair de casa de Polanski. Enquanto Kasabian servia de vigia, os membros da Família Manson começaram a perseguir outro amigo de Polanski, Wojciech Frykowski, e mataram-no. Abigail Folger também foi assassinada por Watson. Dentro da casa, os membros da Família Manson amarraram Tate e Jay Sebring, um cabeleireiro famoso. Ambos foram assassinados. 

No dia seguinte, Leno e Rosemary LaBianca também foram assassinados pela Família Manson, com Kasabian a servir como vigia novamente. Mais tarde, ela testemunhou contra os membros da Família Manson.

Enquanto muitas coisas permanecem semelhantes no filme, “Once Upon a Time…in Hollywood” efetua mudanças importantes sobre os assassinatos de Manson. No filme, Manson faz apenas uma aparição breve durante uma visita à casa de Polanski. Tate observa da porta da frente, onde – na vida real – a palavra “PIG” foi escrita com o sangue dela depois dos homicídios. 

Inicialmente, Tarantino permanece fiel aos eventos reais, quando Watson, Atkins, Krenwinkel e Kasabian chegam a Cielo Drive e planeiam matar todas as pessoas que estão na casa de Polanski. Porém, mais à frente, o cineasta “ficcionaliza” os eventos da vida real quando Rick, uma criação de Tarantino, confronta os membros da Família Manson fora da sua casa. 

O grupo percebe que tem perante si o protagonista de “Bounty Law”, uma aclamada série televisiva. Perante esse cenário, decidem matá-lo, até porque aquele foi o homem que, inadvertidamente, os introduziu à violência quando eram crianças. 

O momento do confronto no carro não substitui apenas o homicídio verídico de Parent (visto que ele foi inicialmente confrontado pela Família Manson enquanto ainda estava no seu veículo) mas empurra também o grupo para uma nova direção, longe de Sharon Tate, mas totalmente focalizado em Rick Dalton. E é aí que tudo muda.

No filme, Tex entra na casa de Rick, e diz o seguinte a Cliff: “I’m the devil, and I’m here to do the devil’s business”. Na vida real, estas palavras foram proferidas a Frykowski, uma das vítimas. 

Para a representação alternada dos acontecimentos de Tarantino, Cliff mata Watson e Krenwinkel, e Rick usa o lança-chamas para matar Atkins na piscina.Once Upon a Time… in Hollywood” termina com Cliff a ir para o hospital e Rick a ser convidado para a casa de Polanski por Tate e Sebring. 

Embora os destinos de Manson e Kasabian nunca tenham sido revelados no filme, é seguro presumir que Cliff contou à polícia sobre a visita ao Spahn Ranch, e que a Família Mason tenha sido presa.

Ao reescrever a história em “Once Upon a Time…Hollywood”, Tarantino não celebra somente o legado de Tate, mas preserva a era do cinema e da televisão com a qual cresceu . Em vez de retratar a Tate como uma vítima da Família Manson, adota uma abordagem de dia-a-dia, destacando a personalidade e a vitalidade da atriz. 

Com quase três horas de duração, o filme é quase como uma sequência de curtas-metragens. Cada capítulo fornece vários detalhes para analisar, nomeadamente no que toca às personagens, mas também o mundo em que vivem.

Desta forma, Tarantino oferece um comentário sobre a própria indústria do cinema, enquanto analisa os seus personagens. Há momentos de ternura e momentos extremamente violentos. Ele não adere a uma fórmula específica, em vez disso, aproveita o tempo e diverte-se, tal como muitas pessoas fizeram naquele ano de 1969.

No final, o público é convidado a efetuar a retrospectiva de “o que poderia ter sido”. Se Tate tivesse sobrevivido, provavelmente teria alcançado o status de celebridade em Hollywood em toda a sua plenitude. 

Por curiosidade, num determinado momento do filme, Tate entra numa livraria para comprar um presente ao marido – primeira edição de “Tess of the D’Urbervilles”. Dez anos depois, Polanski (o verdadeiro) realizou uma adaptação cinematográfica do livro, chamado “Tess”, e dedicou-o a Sharon.

Devido ao casamento com Polanski, se calhar Tate tinha singrado no cinema Europeu. Provavelmente iria competir por papéis com Sissy Spacek, Diane Keaton ou Cybill Shepherd, e teria atraído a atenção de cineastas como Martin Scorsese, Brian De Palma, Peter Bogdanovich, Steven Spielberg e até Woody Allen. 

Por fugir um pouco ao registo normal de Tarantino, “Once Upon a Time… in Hollywood” torna-se eficaz e especial em simultâneo. Durante quase 30 anos, os filmes de Tarantino foram repletos de violência, diálogos inteligentes e referências à cultura pop. 

Tal como “Reservoir Dogs”, “Pulp Fiction” não apresentava uma narrativa linear, com Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) a unirem esforços para recuperar uma pasta misteriosa para Marsellus Wallace (Ving Rhames), o seu chefe. A violência é extrema; os personagens são elegantes e os diálogos são deliciosamente perspicazes. 

“Pulp Fiction” foi um marco na cultura pop e fortaleceu a marca de Tarantino como um cineasta de primeira água. Todavia, “Jackie Brown” desviou-se um pouco da sua fórmula estrutural e, como tal, não provocou grande furor na crítica e no público. Daquele momento em diante, Tarantino voltaria ao modelo estabelecido nas suas duas primeiras longas, e, desta feita, “Kill Bill” demonstrou ser mais um capítulo feliz na história do cineasta. 

Posteriormente, “Inglourious Basterds”, “Django Unchained” ou “The Hateful Eight” seguiram a fórmula e o núcleo do que costuma alimentar um filme de Tarantino, porém, “Once Upon a Time… in Hollywood” evidencia um cineasta mais maduro. 

Muito à semelhança de “Jackie Brown”, “Once Upon a Time…in Hollywood” tem um enredo suave e linear. Tarantino dedica-se a cada cena de uma forma coesa e subtil, e enquanto que muitos poderiam esperar uma história fundamentada nos homicídios de Manson, o enredo primordial acaba por ser estabelecido num restaurante. 

De forma espontânea, surge Rick Dalton, um homem que chega à conclusão que já não é relevante, e que precisa de superar as suas inseguranças. De repente, o filme torna-se mais do que isto, mas está intimamente ligado com o conflito interno de um homem que está perdido no seu mundo. 

Em vez de fazer derramar sangue a cada cinco minutos, acompanhado de um diálogo primordial, Tarantino desenvolve os personagens com eficiência. Muitas sequências são concluídas com um tiro suspenso; um momento de reflexão para o público. 

Tarantino enfatiza o percurso de Rick e Cliff, tal como a amizade que nutrem um pelo outro. O ator luta com o que poderia ter sido (protagonista de “The Great Escape”); enquanto que o duplo luta com a percepção pública, isto é, como o facto de se julgar que matou a esposa. Contudo, apesar das falhas, tentam mudar com o tempo, mas querem permanecer fiéis a algumas ideologias.

Assim, dá-se prioridade à tensão sobre a violência. Os momentos mais sangrentos ficam guardados para o final. Ao desenvolver plenamente os personagens principais, Tarantino prepara o público para o conflito inevitável com a Família Manson, embora Tate não receba destaque. 

Margot Robbie recebe poucos diálogos porque qualquer desenvolvimento mais expansivo teria sido prejudicial ao retrato da personagem, uma vítima de homicídio na vida real. Efetivamente, consegue ouvir-se todo o horror do que realmente aconteceu na Cielo Drive, mas através da mudança de um toque simples e fictício do destino.

No final, “Once Upon a Time… in Hollywood” funciona em vários níveis. Por um lado, fornece um final catártico para aqueles que estão familiarizados com os acontecimentos verídicos. Tarantino inclui a sua marca registada de violência, mas efetua uma abordagem empática com a sua história alternativa. Claro que esta abordagem não muda em nada o final trágico em torno de Tate, mas também é para isso que os filmes existem, isto é, para assumirem a condição de uma fuga breve da realidade.

Em termos de narrativa, Rick e Cliff acabam por salvar o dia. Existe esta conclusão bizarra e positiva que apenas Tarantino poderia fornecer. Rick encontra as conexões profissionais que ambicionava alcançar, e Cliff prova que ainda consegue estar no auge da sua forma física, mesmo sob o efeito de uma viagem muito espirituosa. 

Além disso, o rescaldo da aventura naquela noite parece sugerir que Rick e Cliff devem continuar a trabalhar juntos, uma vez que a carreira de Rick pode ser “ressuscitada” graças ao encontro com Sharon Tate e, eventualmente, com Roman Polanski. 

De forma hábil, Rick incorpora os traços de vários atores verídicos que lutaram para mudar à medida que o tempo foi passando. Não obstante, Tarantino desencadeou uma conversa que promete continuar por muitos anos, seja sobre a cultura das celebridades, a indústria cinematográfica ou a representação de doenças mentais.

Numa outra perspetiva, o título da longa-metragem é, por si só, uma homenagem a dois dos filmes mais aclamados Sergio Leone – “Once Upon A Time In The West” e “Once Upon A Time In America”. Além de Leone, há também uma homenagem a Sergio Corbucci, que trabalha com Rick Dalton em “Nebraska Jim”. Corbucci realizou “Django”, em 1966, que foi a maior influência do próprio “Django Unchained” de Tarantino.

Convém também realçar a adoração que o cineasta tem em trabalhar com os mesmos atores mais do que uma vez. De facto, DiCaprio e Pitt já tinham trabalhado com Tarantino noutras ocasiões, mas não foram os únicos que marcaram presença neste filme.

Um dos melhores cameos do filme vem de Michael Madsen (“Reservoir Dogs” e “Kill Bill”), que vemos a contracenar com Rick Dalton num episódio de “Bounty Law”. 

Outras caras conhecidas incluem Kurt Russell (“Death Proof” e “The Hateful Eight”) e  Zoë Bell, que costuma assumir funções de duplo nos filmes de Tarantino. Tim Roth, outro colaborador regular do realizador, também deveria aparecer, mas os créditos notam que a sua participação foi cortada.

The Mamas and the Papas, a banda cuja música desempenhou um papel fundamental na contracorrente dos anos 60, deixou a sua marca no filme de várias maneiras. Duas das suas músicas – “California Dreaming” e “Straight Shooter” – surgem na banda sonora. Todavia, esta última é especialmente significativa, visto que a partitura musical da mesma foi encontrada num piano na casa de Polanski, e a poucos metros de onde o corpo de Tate foi encontrado já sem vida.

A música tem sempre um papel importante nos filmes de Tarantino, e em “Once Upon a Time…in Hollywood” não existe exceção. Enquanto ouvimos várias músicas clássicas daquela época, existe uma primordialmente relevante. Quando vemos pela primeira vez os membros da Família Manson nas ruas de Los Angeles, eles cantam uma música chamada “I’ll Never Say Never To Always”, que é da autoria do próprio Charles Manson. 

O filme faz referência a vários outros locais reais, como o Musso & Frank Grill, e lojas como a Peaches Records & Tapes. Há também o aceno a muitos filmes e séries televisivas dos anos 60, como “Rosemary’s Baby”, “Pretty Poison”, “Three in the Attic”, “Valley of the Dolls”, “2001: A Space Odyssey”, “Candy”, “The Man From UNCLE”, “Lady In Cement“, “The Killing Of Sister George”, e, obviamente, “The Great Escape”. 

Em suma, este filme acaba por ser um desafio para o público analisar perspectivas diferentes. Como Tarantino utiliza os acontecimentos históricos como pano de fundo para uma narrativa sobre indivíduos fictícios, os espectadores podem ter experiências diferentes em cada visualização. Inevitavelmente, Once Upon a Time…in Hollywood” é parte verdade e parte ficção; uma contradição cinematográfica louca e bela. 

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João Pedro

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