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Suffragette: Nunca é tarde para lutar

by João Pedro

O cinema tem a capacidade de documentar, dramatizar, inspirar e educar. “Suffragette” consegue oferecer tudo isto, ao mesmo tempo que é extremamente envolvente. A argumentista Abi Morgan e a realizadora Sarah Gavron, juntamente com um elenco que inclui Carey Mulligan, Helena Bonham Carter, Anne-Marie Duff, Brendan Gleeson, Ben Whishaw e Meryl Streep, apresentam uma obra urgente e atraente. 

É fácil acreditar numa causa. E também é fácil apoiar uma causa. Porém, o verdadeiro desafio incide em lutar realmente pela causa em si. Lamentavelmente, vivemos num mundo onde a igualdade raramente consegue ser alcançada sem grande sacrifício.

“Suffragette” conta a história de mulheres que foram suficientemente corajosas para lutar pelo seu direito ao voto. Tendo lugar no Reino Unido durante o final do século XIX, o filme é centrado numa mulher chamada Maud Watts (Carey Mulligan), uma personagem fictícia que foi inspirada em várias mulheres que integraram o movimento sufragista feminino britânico.

Ao longo da vida, Maud fica a saber que não pode ser mais do que filha, esposa e mãe. Maud aceita essa depreciação, até que o direito ao voto para as mulheres começa a tornar-se uma possibilidade real. Ela é convidada a integrar um grupo clandestino de rebeldes que está disposto a violar a lei para obter justiça. Para conquistar os direitos que merecem, porém, estas mulheres correm o risco de abrir mão de tudo.

Esta é uma das performances mais cativantes da carreira de Mulligan, na pele desta mulher que está dividida entre fazer o que está certo ou render-se ao sistema. Ela tem vários confrontos com uma figura de autoridade chamada Steed (Brendan Gleeson), que tenta silenciar as rebeldes a cada passo.

Posteriormente, quando é enviada para a prisão e espancada pela polícia, Maud também perde o marido, o filho e a “dignidade”. Muitas vezes, fica tentada a desistir da luta, e a analisar se a causa vale o sacrifício. Mulligan não poderia ser mais poderosa na criação desta personagem empática, que faz com que o público seja obrigado a questionar o que poderia fazer se estivesse naquele lugar.

Maud é encorajada a continuar a lutar por meio da amizade com várias sufragistas importantes. Recebemos um trabalho forte de Helena Bonham Carter como Edith Ellyn, e de Natalie Press, como Emily Davison, duas mulheres que estavam dispostas a pagar o preço final pela igualdade.

© 2015 – Focus Features

Surpreendentemente, quem desilude é Meryl Streep, no seu papel de Emmeline Pankhurst. Dado o calibre de Streep como atriz e o impacto que Pankhurst teve no feminismo, presumo que era quase obrigatório que este trabalho oferecesse mais do que uma mera participação especial. No entanto, o trabalho emocional de Mulligan acaba por ser mais do que suficiente para carregar o filme.

“Suffragette” não é exatamente subtil a transmitir sua mensagem, e, de facto, é apropriado perceber que estas mulheres não eram subtis na sua abordagem. Elas sabiam que, para abrir os olhos das pessoas à injustiça, às vezes é necessário ir a certos extremos.

O filme lembra-nos da influência importante que estas mulheres tiveram na sua geração e nas gerações futuras. Embora as mulheres tenham conquistado o direito ao voto na Grã-Bretanha, continua a ser chocante que ainda existam países que proíbem o voto feminino. Isto só nos pode dar mais motivos para nunca desistir da luta.

Efetivamente, a obra quer “educar” o público sobre o ativismo e documenta alguns eventos históricos, incluindo imagens de arquivo nos momentos finais. É preciso ter cuidado com as representações ficcionais de eventos históricos, e qualquer historiador poderá apontar imprecisões.

Todavia, o significado do movimento sufragista exige alguma forma de narrativa cinematográfica, e o filme também documenta as datas em que vários países instituíram votos para mulheres. A Nova Zelândia aparece como a primeira, instituindo esse direito democrático em 1893, enquanto a Grã-Bretanha não alcançou direitos plenos de voto até 1928 e os Estados Unidos em 1920.

O argumento político do filme é evidente a partir destas datas – muito foi alcançado, mas ainda resta bastante por fazer. Portanto, “Suffragette” tem sucesso como narrativa dramática de eventos históricos, e como nota para recordar que a rendição nunca pode ser opção quando se trata de direitos humanos.

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