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Stephen King: Um artesão de emoções extravagantes

by João Pedro

Stephen King conta com mais de sessenta obras literárias, sendo que boa parte destas foram #1 bestsellers. Em “On Writing”, King fala-nos do amor precoce por escrever histórias e o subsequente dilúvio de várias cartas com a rejeição de editoras. Os primeiros sucessos surgiram na forma de vários contos que foram publicados em revistas, mas o grande avanço que lhe permitiu escrever em tempo integral foi a publicação de “Carrie”. 

A publicação de “Carrie” foi o início de uma carreira longa, prolífica e contínua para Stephen King. Em 2006, um artigo da BBC afirmou que King vendeu mais de trezentos e cinquenta milhões de exemplares dos seus livros, porém, desde então, escreveu outros tantos romances adicionais, por isso, os números nunca param de crescer.

A contribuição de King para a literatura é incontestável, não obstante, o legado que deixa para o cinema e televisão é igualmente substancial, visto que participou na elaboração de vários argumentos para filmes ou séries baseados nos seus trabalhos.

Embora o nome de King possa ser associado ao terror, esta suposição não lhe faz justiça. Efetivamente, o seu trabalho não pode ser rotulado de uma forma tão simples. Para quem não leu os seus livros, pasmem-se então que, sem o trabalho de King, não existiriam as adaptações de “The Shawshank Redemption”, “The Green Mile” ou “Stand By Me”.

É impressionante que todos os anos, à exceção de 1981 e 1988, tenha existido pelo menos um filme ou uma série baseados nas obras que King lançou desde 1979. Muitas das adaptações das suas histórias ganharam ou foram nomeadas a Oscars ou Emmys, como “The Shining” (minissérie de 1997), “Castle Rock”, “11.22.63”, “Misery” e “Carrie” (1976).

Adicionalmente, nos últimos anos, filmes como “IT”, “1922”, “Pet Sematary” e “Doctor Sleep”, bem como as séries “Mr. Mercedes” e “The Outsider”, foram responsáveis por renovar o interesse pelas histórias de King no ecrã.

Uma das adaptações mais famosas de um obra de King é a de “The Shining”, de Stanley Kubrick. A abordagem do cineasta é diferente, embora a longa-metragem seja um marco no cinema. Kubrick não conseguiu obter efeitos especiais satisfatórios para recriar os hedge animals, algo fulcral no livro.

 

Esta foi uma das várias diferenças entre o filme e o material de origem, mas toca num ponto significativo que afetou as adaptações das obras de King ao longo dos anos. Os elementos místicos das obras do autor e o alcance extravagante da sua imaginação acabaram muitas vezes por representar problemas naquilo que é a adaptação dos livros para o ecrã.

Em contrapartida, a tecnologia moderna na produção de filmes preencheu esta lacuna, e agora é possível retratar de forma realista algumas das descrições deslumbrantes dos livros de King.

Algumas das melhores adaptações, como “The Shawshank Redemption” e “The Green Mil”, tiveram sucesso, em parte, porque exigiam poucos efeitos especiais exigentes.

Embora a produção de filmes tenha evoluído de várias formas, a diferença entre a adaptação de “IT” para a televisão na década de 90 e a adaptação para o cinema em 2017 é indubitavelmente profunda no departamento de efeitos especiais. Nos últimos anos, esta capacidade de incorporar os efeitos exigidos nas obras de King de forma satisfatória abriu portas para o vasto leque de obras que anteriormente saíam prejudicadas.

Claro que outro aspeto na abordagem dos romances de King, é encaixar a história dos livros num argumento adaptado (mas isto é um problema universal). Recentemente, o aumento na qualidade do que se faz em televisão permitiu que alguns dos trabalhos mais longos de King encontrassem um lugar ao sol.

Neste caso, como muitos dos seus livros somam mais de quinhentas páginas, a televisão não tem de espremer a história a um período de execução de 2 horas. O formato de série acaba por ser mais atraente, visto que fornece o tempo para explorar as obras na profundidade que, de facto, é exigido.

Desta feita, e embora ainda necessite de ler muito mais de King, posso deixar aqui algumas sugestões em torno das adaptações que mais apreciei ver dos seus livros:

“Carrie” (1976)

Quando penso em Sissy Spacek, a primeira coisa que me vem à cabeça é a sua Carrie White do filme “Carrie”.

Embora tenha sido o quarto romance que King escreveu, “Carrie” foi o seu primeiro livro publicado, e a adaptação para o cinema foi concebida apenas dois anos depois do romance surgir. A partir daí, o resto é história. É um marco na história da literatura e do cinema.

“Stand by Me” (1986)

Quatro amigos decidem procurar o cadáver de um adolescente desaparecido, que foi atropelado por um comboio. O objetivo dos rapazes é quase serem vistos como heróis diante dos amigos e da população da cidade em que vivem. Desta feita, partem numa viagem inesquecível de dois dias que se transforma numa odisseia de auto-conhecimento.

Quando a noite chega e a lua é a única luz que vemos, podemos assistir “Stand by Me”, o filme que Rob Reiner realizou em 1986, baseado em “The Body”, que King viu publicado em 1982.

O próprio Stephen King precisou de algum tempo para se recompor antes de dizer que era a primeira adaptação verdadeiramente bem-sucedida de qualquer coisa que ele tinha escrito. Rob Reiner ainda menciona este filme como o seu predileto entre todos os que fez.

“Misery” (1990)

“Misery” conta a história sobre uma antiga enfermeira que mantém o seu autor favorito como refém.

A performance de Kathy Bates como Annie Wilkes é, sem dúvida, a adaptação mais fiel que King pode pedir. Aliás, a prestação foi de tal forma sublime que, em 1991, a atriz arrecadou um Óscar pela sua prestação.

Surpreendentemente, com esta vitória de Bates, “Misery” é a única adaptação cinematográfica de uma obra de King a ter arrecadado um Oscar.

“Dolores Claiborne” (1995)

Esta história parece uma carta de amor de King para a mãe solteira, que teve de sustentar a família sozinha depois do pai ter saído de cena.

Kathy Bates interpreta Dolores – uma governanta obstinada do Maine que não vê Selena, a filha afastada (Jennifer Jason Leigh) há 15 anos. Selena surge quando a mãe é suspeita de um homicídio que reflete os acontecimentos em torno da morte do seu pai, uma pessoa violenta e que era viciada em álcool.

“The Mist” (2007)

Frank Darabont é um cineasta de referência quando se trata de adaptações de King, e “The Mist” não podia ser exceção.

Ambientado quase inteiramente num supermercado de uma localidade do Maine, onde os moradores vivem escondidos, Thomas Jane rouba o protagonismo num grande elenco de atores, especialmente numa cena final desmesuradamente crua, sombria e incrível.

“Mr. Mercedes” (2017)

Brendan Gleeson é fantástico a retratar Bill Hodges, um detetive que vive obcecado em prender um serial killer sobrenatural, interpretado por Harry Treadaway. A trilogia que King escreveu em torno de Mr. Mercedes surge muito bem retratada nesta série da Audience.

Stephen King tem escrito e entretido leitores e o público com as suas histórias durante quase cinquenta anos. Fez mais que o suficiente pela literatura, cinema e televisão na sua vida, mas fico grato que ainda vá dando uso à caneta para partilhar as suas histórias com o mundo.

 

Parabéns, Mestre!

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