Hikari, realizadora de episódios de “Beef” e “Tokyo Vice”, regressa aos cinemas com um segundo filme, “Rental Family”, protagonizado por Brendan Fraser.
Até que ponto é que mentir com uma finalidade nobre se torna plausível? Em “Rental Family”, Phillip (Brendan Fraser), é um ator americano que vive no Japão e cuja carreira parece estar em queda, até começar a trabalhar numa agência que aluga “membros de família” e outros papéis sociais para clientes que precisam de companhia ou apoio em situações delicadas.
Phillip, outrora solitário, depara-se agora com ter de assumir papéis na vida real dos seus clientes, seja de um marido, de um amigo, de um jornalista e até de um pai. Apesar de inicialmente Phillip se debater com este negócio, quando começa a interpretar estes papéis fictícios, ele acaba por criar laços verdadeiros e parece encontrar uma nova vocação.

O filme explora as conexões humanas e o sentimento de pertença de forma sensível, convidando o espectador a refletir sobre estas relações artificiais que dão origem a emoções genuínas, mas não posso deixar de destacar que, apesar de ter uma ou outra frase mais reflexiva, aborda toda a questão central da narrativa de uma forma um pouco superficial, escolhendo não navegar muito no que poderia ser mais moralmente desafiador.
A atuação de Brendan Fraser é calorosa, vulnerável e profundamente emocional, desempenhando um papel perfeito na construção desta personagem, deixando-nos completamente convencidos e ligados à sua jornada.
A questão que me acompanhou durante o visionamento foi “até que ponto são estes papéis moralmente corretos?” Será que a mentira e o engano podem ser justificáveis quando servem um propósito aparentemente nobre? O filme levantou-me este dilema, sobretudo na situação em que Phillip finge ser pai de uma criança, um contexto muito delicado onde a confiança é um pilar fundamental.

A ideia central de “Rental Family” – um negócio tão surreal como alugar atores para desempenharem papéis enganosos na vida de alguém – provocou-me curiosidade e obrigou-me a questionar até que ponto uma relação construída num ambiente de falsidade de um lado, e de ignorância no outro, pode ter um valor emocional tão real. Será a verdade mais importante do que o conforto que uma mentira pode proporcionar?
Talvez esteja a ser demasiado crítica de “Rental Family”, um filme familiar, cómico, que pretende mostrar que mesmo no engano, as conexões humanas podem ser reais, poderosas e transformadoras, mas considero que seja mesmo aí que o filme encontra a sua força.

