[pode conter spoilers]
A DÉCADA PERDIDA DA DC
Para quem, como eu, cresceu e viveu rodeado de bandas desenhadas, em especial da Marvel e da DC, a década de 2010 foi marcada pela consolidação do interesse generalizado por estas marcas monolíticas da cultura de massas, sendo o cinema o seu verdadeiro laboratório. Foram tempos de tudo aquilo que um fã adolescente poderia querer. Se o MCU trilhava a passos largos o caminho para se tornar o maior fenómeno da cultura popular do seu tempo, a DC tinha dificuldade em entrar numa corrida que, hoje podemos constatar, jamais conseguiria rivalizar, quanto mais vencê-la.
As expectativas eram altas. O legado deixado por Nolan, com a trilogia The Dark Knight, era igualmente impressionante. Zack Snyder acabara por ser o escolhido para ser o arauto, criativo e conceptual, deste universo cinematográfico da DC. A sua visão moldou tudo o que foi feito desde 2013, mesmo que, na sua ausência na realização e no guião, as suas ideias e estilo dificilmente se conseguissem descolar do autor. O Superman era, naturalmente, o herói predileto para se seguir ao Batman, numa altura em que a concorrência já havia unido as suas maiores figuras numa longa-metragem de sucesso.
Independentemente do gosto de cada um, Man of Steel, enquanto filme, foi positivo, ainda que a sua controvérsia resida na reinterpretação de Snyder sobre a personagem, que, em grosso modo, se distancia da imagem que culturalmente lhe associamos. Coincidência ou não, na época tinham-se reunido todas as condições para que, coletivamente, tanto criativos como o próprio público se cansassem, ou melhor, achassem ultrapassada a ideia raiz do Superman como arquétipo do herói máximo por excelência. O Super-Homem “bonzinho”, das comics e da era Christopher Reeve, era, para muitos, aborrecido e, em suma, foleiro.

SUPER-HOMEM DESCONTRUÍDO
Estava montada uma conjetura na cultura pop em que, direta ou indiretamente, qualquer versão arquetípica ala Super-Homem tinha de ser desconstruída e revista. Numa era em que, nos videojogos, assistíamos à ascensão meteórica de popularidade do universo Injustice, onde o herói havia negado o altruísmo em troca de uma persona autoritária; nas séries, casos como The Boys (Homelander) e Invincible (Omniman) tornavam a sua figura em algo vilanesco, sem escrúpulos e num completa chacina psicopata; nas comics, com os New 52, tínhamos um Super-Homem, ainda que genuíno, mas impulsivo e rebelde. E, a cereja no topo do bolo, a já mencionada versão de Snyder, que focou numa tal idealização incessante, querendo comparar a todo o momento o seu herói a uma espécie de figura messiânica, como um deus literal, trocando a boa disposição e energia pela postura estoica e contemplativa dos problemas do mundo.
Esta tal aceitação popular do Homem de Aço enquanto figura mais edgy caiu que nem uma luva num novo público da época, também ele muito jovem e irreverente, que queria fugir à versão clássica e, aos seus olhos, considerada esgotada. Mesmo nos últimos resquícios iminentes desta leva, desta década de 2020, alguns lutaram por mantê-la viva, até ao inevitável reboot que ocorreu, derivado dos insucessos na bilheteira e do clima de saturação que este subgénero enfrentava, e enfrenta, nos mais diversos sectores do público-alvo. Torna-se um tanto curioso de observar, e até irónico, que o fim da publicação de All-Star Superman (indiscutivelmente a maior obra-prima do herói, remanescente e em homenagem à era de ouro e prata das comics) se tenha dado precisamente no começo da edificação dos alicerces daquela que viria a ser a versão lugar-comum do Superman subversivo “do mal” que temos tido desde então.

Como Grant Morrison (autor da banda desenhada mencionada) havia representado maximamente a substância do filho de Krypton em All-Star, pareceu que a indústria se havia saturado de vez e decidira, conjuntamente, desvirtuar essa representação e trilhar um novo caminho pela frente. Encontramo-nos atualmente no fim deste interregno que tinha vergonha da bondade, do humanismo e da esperança do Super-Homem, com a mais nova adaptação já nos cinemas. Este caminho que liga 2008 a 2025 deu para entreter e foi positivo, admito, eu era parte do público-alvo afinal, porém, no essencial, deixou imensa fome a quem via o Superman como muito mais do que aquela descrição que fiz atrás e das suas sucessivas reinterpretações que o demoliam enquanto mito.
O REGRESSO À SILVER AGE E A NOVA VISÃO DE JAMES GUNN
James Gunn, arquiteto do novo virar de página da DC nos cinemas e realizador que assina este filme, soube ler muito bem o panorama e os erros do passado. O Super-Homem voltou a ser “Super”, de facto. Não querendo tornar isto também numa nova análise do filme, pois já há uma bem conseguida pelo colega João Borrega, torna-se inevitável não tecer alguns pontos acerca desta recente produção cinematográfica. A primeira reação ao filme, ou melhor, ao seu anúncio, foi quando Gunn afirmou que Kingdom Come e All-Star Superman seriam as influências criativas principais desta nova versão. Ora, quem já leu sabe que ambas representam o herói em momentos finais da sua vida (inclusive literais), em que prestam homenagem a tudo o que veio antes, não querendo, por isso, afirmar nada de revolucionário quanto à interpretação da personagem.

O que me deixou perplexo. Afinal, trata-se de uma longa-metragem, a seu jeito, de origem, um recomeçar, melhor dizendo. Na prática, como se viu no filme, não passou de alusões visuais e vários “piscares de olho” a estas obras magnanimas. Indo agora de encontro ao teor do filme, e ao porquê de o Superman ser “Super” de novo, tem de se olhar novamente para o passado das bandas desenhadas. Gunn escolheu retratar o Super-Homem clássico, o da Era de Prata, que vivia num contexto de exageros cartoonescos, onde tudo era possível, como o Jimmy Olsen ser transformado num kaiju gigante. Isto era apresentado da maneira mais natural possível, sob a forma de aventuras semanais ou mensais, onde, na seguinte, tudo voltava ao início, sem grande preocupação com continuidades. Eram, por isso, histórias descomprometidas, bem animadas e humoradas, esse foi o clima vivido nas bandas desenhadas da Era de Prata, nos anos 1970. E esse foi o clima resgatado aqui. Uma ode à Silver Age.
Isso, no filme, é visível logo no seu didatismo. Existem monstros e criaturas que subitamente invadem Metrópolis; uma fotografia que preza pela grandeza e pelas cores vibrantes; momentos sérios que se misturam com piadas casuais; a introdução do equivalente à Justice League of America (JSA) como sendo algo totalmente aceite, quer em termos dos meta-humanos em ação, quer pelos próprios humanos e civis do filme, que aceitam esta realidade fantasiosa como algo orgânico. Gunn não perde tempo com explicações sobre o exagerado e o imaginário. É esse “clima” que se sente ao abrir qualquer página de uma qualquer comic dessa Era de Prata, e honestamente, de qualquer comic do género, sejamos sinceros.

A caracterização do leque de integrantes secundários que compõem as histórias do Homem de Aço é também algo importante a realçar. A energia e dinâmica dentro do Daily Planet é algo nunca antes adaptado: desde o Perry White à Lois Lane, os poucos momentos dentro da redação poderão, e com certeza vão, dar frutos fora e dentro do filme. Depois, claro, a repórter tem uma ótima química com o Clark, que é um dos elementos mais fortes a acertar, e dos mais cruciais do mito do Super-Homem. Pois é Lois Lane que traz a relação humana para outro patamar e de proximidade com a audiência.
O próprio Kal-El, Clark Kent ou Super-Homem não é perfeito. Trata-se de uma espécie de “Year One” Superman, em início de atividade, que tem os seus momentos de imaturidade, mas também de aprendizagem. A longo prazo, acredito que a interpretação de David Corenswet consiga chegar aos pés da de Reeves. É uma figura que, num primeiro vislumbre em ação, está abatida, num estado sofrível. Era preciso criar este laço de conexão com o público, que é fraturante com a concepção de Snyder. Pois críticos da personagem apontam a sua vulnerabilidade e superpotência como algo que joga em seu demérito, e Gunn, mais uma vez, percebeu que mostrar um lado mais exposto não só marcaria logo a diferença de tom, como sintetizaria, para quem vê, qual a perspetiva que quer levar daqui para a frente.

Já a sua contraparte sombra, Lex Luthor, foge do megalómano incompreensível de Batman v Superman (2016), ainda assim afastado do clássico carismático Gene Hackman, para alguém profundamente alterado, com ódio a ferver por aquele ser diferente. É também um Luthor em “Year One”, mas muito mais avançado, conceptualmente, que a sua contraparte heróica; afinal, para que este provoque qualquer senso de ameaça, era preciso que estivesse bem estabelecido neste universo. É inspirado na comic Lex Luthor: Man of Steel: multimilionário com uma sede incansável por poder e aceitação, e como o “escolhido” de Metrópolis que vê o seu trono ameaçado pela reputação do alienígena.
Há uma cena no filme que me convenceu sem margem para dúvidas que Gunn percebeu a linguagem da BD e o espírito que se sente: à noite, num prédio, quando Lois e Clark conversam acerca da sua relação, de longe, espelhado, vê-se a JSA a combater uma ameaça qualquer nos céus de Metropolis. Isto pode parecer algo banal, mas é exatamente esta a energia de uma comic. Há coisas a acontecer, e isso é normal. A ação não precisa de estar sempre nos grandes momentos, estes podem acontecer ao fundo. Não só isto, mas, no geral, e bem sei que muitos gostam de usar e abusar (eu incluo-me) da expressão “é como uma banda desenhada em filme live-action” a verdade é que já não sentia isto há mesmo muito tempo, talvez desde os filmes do Spider-Man com Sam Raimi. Temos em mãos um filme que verdadeiramente, e com sinceridade, transpira uma banda desenhada com vida. Como leitor já sénior de BDs, isto foi uma catarse total em plena sala de cinema IMAX (que recomendo).

Numa nota mais negativa, não sou o maior fã da tentativa de subverter a história do país do Kal-El. O filme tenta aproximar-se daquilo que vimos com Thomas Wayne em The Batman (2022), mas mesmo aí há um meio-termo, não se comprometendo com qualquer visão muito positiva ou pessimista. Já aqui, é-nos deixada a bomba nas mãos de que Jor-El enviou, efetivamente, o seu filho para a Terra com o propósito de dominá-la. Isto vai ao encontro da comic Superman: Birthright, onde Luthor, impondo um falso medo do Super-Homem na população, engenha um vídeo falso em que os kryptonianos se encontrariam, supostamente, vivos e prontos para invadir o planeta. A BD não encerra sem clarificar o assunto como falso, já o guião do filme deixa isto presente no final, plenamente consciente das implicações que tal informação acarreta na perceção do público.
SUPER-HOMEM COMO FAROL DE ESPERANÇA DA ATUALIDADE
Acredito que futuros filmes irão desmitificar a tal mensagem deixada por Jor-El, pois dificilmente tal me parece verdade nesta versão. Acredito que Gunn, enquanto guionista, é mais perspicaz do que isto, fazendo com que a sua mensagem paternal, que é muito comovente e significativa por sinal, se sobreponha ao cânone estabelecido por anos da personagem, num filme com intenções mais nobres e cartoonescas. Seja como for, noutro ponto está a componente política. Muito se vê online de reações negativas quanto a este ponto, mas é precisamente pelo Super-Homem ser uma personagem intrinsecamente política que ele se torna tão rico e “Super”.

Enquanto expoente máximo do herói da sociedade de cultura de massas, introduzido por Umberto Eco no seu mito literário, enquanto resquício contemporâneo de esperança do primeiro pós-guerra e, sobretudo, enquanto figura que replica o papel que os deuses gregos e romanos tinham para a humanidade no seu tempo, o Super-Homem é tudo isto. É uma figura que, na maioria das histórias em BD, não descurava de ter menções ao tempo político em que se vivia. Por sinal, abrindo um parênteses, não só a DC, mas também a Marvel, já que, por exemplo, o universo Ultimate das comics foi uma resposta direta à era da administração George Bush.
A personagem do Superman, por isso, coincidência ou não, sempre teve reinvenções e novos olhares em momentos de viragem histórica nos EUA. Basta lembrar como o filme clássico com o, ainda definitivo, ator da personagem Christopher Reeve injetou um profundo sentimento de esperança e apaziguamento do ego americano, após os anos conturbados do escândalo Watergate e da derrota no Vietname. Um filme amplamente patriótico como resposta à contra-cultura dos anos 1970. E o mesmo sucedeu noutras épocas, tanto nas BDs como fora delas, sendo o Superman um farol para novos tempos vindouros.

James Gunn é ousado e, igualmente, ambicioso em trazer uma mão cheia de temas que estão na ordem do dia para o grande ecrã. Um Super-Homem visto sob o olhar da imigração, enquanto ser alienígena distante da espécie humana. Um Super-Homem que atua em conflitos atuais, que espelham algumas das maiores invasões e tensões geopolíticas do momento, cuja atuação é decisiva, escolhendo um lado por que torcer. Um Super-Homem rodeado pela cultura da hiperatenção e pelo papel dos media como ferramenta que molda e constrói opiniões, muitas vezes distorcidas da realidade da maioria das pessoas. Um Super-Homem que mete o dedo na ferida, numa época em que grandes egos mediáticos, com grandes fortunas, se colocam a jogar no tabuleiro democrático e condicionam-no para os seus interesses pessoais, em detrimento do bem comum.
É um Super-Homem de cara lavada, pronto para a modernidade, sem nunca esquecer toda a carga histórica e contextual que carrega consigo, algo que foi totalmente apagada com Snyder e relegada para segundo plano há muitos anos. Gunn conseguiu, ao mesmo tempo, tal como nas comics, ter este subtexto a trabalhar a favor da narrativa, sem nunca esquecer também os mais novos e o público familiar, que procuram apenas uma longa-metragem divertida e que os entretenha, onde o bem vence sempre o mal. Há um pouco de tudo, narrativamente e tematicamente, para encontrar neste filme, sendo honesto. Também compreendo o porquê de a inclusão destes tópicos causar tantos antí-corpos online, entendo perfeitamente, mas a verdade é que, se são fãs de BDs, acredito que, inevitavelmente, estes temas sensíveis, que foram atuais um dia na sua época, estão lá, em primeiro ou segundo plano, mesmo que deles não se tenham apercebido, ou das próprias intenções e pensamentos dos autores que as escreveram.

O Superman é, por excelência, o super-herói quintessencial. Este filme de 2025, nas mãos de James Gunn, fez o trabalho de casa e entrega, a meu ver, e apesar de todas as suas imperfeições, a produção live-action audiovisual mais bem conseguida da personagem até hoje. Acertou no Super-Homem, nas personagens de apoio, na ambientação, na mensagem e, acima de tudo, na linguagem da banda desenhada. É um prato completo que me encheu as medidas. Mas agora retorno à frase que dá o título a este artigo: não foi somente o renascer de uma figura mitológica de boas feições e capa vermelha às costas, foi o tirar o pó de um ideal há muito esquecido, tanto no género como na cultura popular.
Foi o resgate da esperança como centro narrativo, da bondade como escolha consciente e da esperança como ato de “contra-cultura punk” face aos tempos sombrios que vivemos. Numa era em que elementos tão simples quanto revolucionários, como estes que referi, são vistos como foleiros ou piegas. Ser “Super” nunca foi sobre invencibilidade ou agigantar-se como um Deus, mas sobre a capacidade de manifestar a humanidade que reside em cada um de nós, quando esta nunca foi tão precisa. Mais do que um virar de página na DC, enquanto blockbuster das massas, financeiramente bem-sucedido, é o momento em que o Super-Homem voltou a ser aquilo que sempre foi: o maior herói de todos, e a conquistar o público que o colocou, injustamente, num museu. Por tudo isto, Superman (2025) foi quando o Super-Homem voltou a ser Super.
