No vasto catálogo da Disney+ encontra-se “McCartney 3, 2, 1”, uma série nomeada a 3 Emmys para os amantes de Paul McCartney e não só, que passou algo despercebida, mas que vale a pena ver.
“McCartney 3, 2, 1” convida-nos a entrar num laboratório musical, para sermos capazes de compreender, em maior grau, a magia por trás do trabalho de Paul McCartney, e, consequentemente, dos Beatles . Os momentos de reflexão vão alternando com momentos de uma exploração musical fascinante; um verdadeiro presente para os amantes da música e especialmente para os fãs dos Beatles.
As memórias são maleáveis. Cada vez que abrimos o baú à procura de uma recordação, corremos o risco de efetuar uma alteração de forma involuntária. E, quanto mais tempo passa, temos menos probabilidades de reviver acontecimentos através de detalhes vividos e específicos, em oposição a representações difusas e gerais de acontecimentos passados.
Nesta perspetiva, é bastante aprazível acompanhar os seis episódios de “McCartney 3, 2, 1” (que está disponível no catálogo do Disney Plus), onde o antigo Beatle, de 79 anos, é questionado sobre o seu “eu” de 20 e poucos anos. Como será que recorda o período de tempo em que integrou um dos grupos musicais mais aclamados de todos os tempos? A todo um aglomerado de possíveis questões semelhantes, Paul McCartney responde o seguinte: “E foi ótimo. Eu olho para trás, para a altura em que trabalhava com um tipo chamado John. Agora, olho para trás, e trabalhei com o John Lennon.”

Foi neste ponto que parece ter residido o desafio para os criadores de “McCartney 3, 2, 1”: como é que se apresenta um dos homens mais entrevistados do mundo, isto é, que durante mais de meio século, falou sobre a banda que gravou pela última vez antes do próprio completar 28 anos? Desta feita, abordar algo fresco parece ter sido uma das principais preocupações dos produtores.
Obviamente, ao longo da série, os fãs mais acérrimos da carreira de McCartney vão reconhecer muitas histórias repetidas, como a conjetura em que ele e John Lennon se conheceram; a inspiração mágica em torno de “Yesterday”, a sua ida para a Escócia depois dos Beatles se terem separado; a ocasião em que ele e Linda, a primeira esposa, foram roubados em Lagos e perderam as demos para “Band on the Run”, e por aí fora.
Porém, se a série carece de informação inédita sobre a vida dos Beatles, acaba por compensar o público ao celebrar os grandes milagres que ocorreram quando eles se juntavam em estúdio. “McCartney 3, 2, 1” capta a maravilha sobre a forma como um jovem e os amigos fizeram música – que, ao contrário da memória, não se degrada nem soa obsoleta, mesmo depois de mais de 50 anos.

Cada episódio consiste em excertos de uma conversa prolongada entre McCartney e o produtor Rick Rubin, que filmaram durante dois dias no passado mês de Agosto. No decorrer da série de três horas (que foi reduzida de 15 horas de filmagens), são revisitadas cerca de três dúzias de canções do primeiro quarto de século do catálogo de McCartney, desde as primeiras experiências, passando por clássicos dos Beatles, até chegar a algumas faixas de McCartney II.
O papel de Rubin pode ser algo discutível, na medida em que ele não assume realmente a pele de entrevistador, e embora vá sugerindo tópicos ou canções específicas, não contribui para o fluxo da conversa. Isto faz por vezes parecer que estamos a ouvir um monólogo de Paul McCartney, que consegue sempre cativar-nos com as suas histórias e referências musicais, por vezes a tocar fragmentos ao piano, como o de “Live and Let Die”, tema que escreveu para o 007 que Roger Moore protagonizou em 1973.
Ao contrário de muitos dos seus pares, o antigo Beatle raramente sugere que as coisas eram melhores naquela altura ou que os artistas das novas gerações – com quem gosta de trabalhar – não estão igualmente inspirados. Tão encantador e à vontade como sempre, continua a ser um otimista irreprimível, jovem na perspetiva se não na voz.

Ao longo dos tempos, nem tudo correu bem, contudo, não há o ressentimento aparente por lhe ser pedido que se debruce sobre um pequeno pedaço menos bom da sua história e, em adição, também não existe o tédio associado ao facto de estar a rever algumas canções pela enésima vez. Pelo contrário; ele não consegue parar de cantar juntamente com o seu “eu” mais jovem e com amigos de longa data enquanto se ouve “Lovely Rita”, “This Boy” ou “Maybe I’m Amazed”.
Ele sabe o significado que estas músicas têm para as pessoas; o mesmo que parece simbolizar para ele – talvez mais agora, como um auto-descrito “fã dos Beatles”, do que quando viveu aqueles tempos da banda.
Já passaram quase 15 anos desde que McCartney fez um (senhor) disco chamado “Memory Almost Full”, mas não deixou de criar memórias novas. Quer as antigas sejam imaculadas ou não, ele vive feliz a partilhá-las. E é muito bom ouvi-lo. Sem dúvida. Aqueles que amam a sua arte têm a sorte por ele também gostar de olhar para trás.
