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“DEVS”: Meditação sobre a Humanidade

by João Borrega

Alex Garland, a mente por detrás de “Ex-Machina” e “Aniquilação” oferece-nos uma minissérie onde debate o determinismo da Vida. 

Desde da sua estreia como realizador em “Ex-Machina” (2014) que percebemos que Alex Garland tinha algo de especial para nos oferecer. E depois veio “Aniquilação” (2018) que, apesar de não ter tido tanto sucesso como o antecessor, veio cumprir a promessa de Garland como um recente mestre no género de ficção científica. 

E, 2 anos depois, estreia “DEVS”, uma minissérie produzida pela Hulu mas distribuída em Portugal pela HBO. Em apenas 8 episódios, Garland deu-nos aquela que pode ser vista como uma das melhores séries que 2020 nos pode oferecer (e sim, tenho noção que ainda é muito cedo para profetizar, mas estou confiante nisto).

Em “DEVS” seguimos os passos de Lily Chan (Sonoya Mizuno), uma engenheira informática que investiga o desaparecimento do seu namorado Sergei (Karl Glusman), depois deste começado a trabalhar numa área misteriosa da empresa tecnológica Amaya, zona esta apenas conhecida como DEVS. 

Em paralelo com esta investigação, também temos a história de Forest (Nick Offerman), o CEO da empresa Amaya e a sua obsessão com DEVS e, no fundo, irmos percebendo aos poucos o que está a ser descoberto na DEVS e as implicações dessas descobertas para a sociedade. 

Portanto, desde cedo percebemos que “DEVS” é uma série altamente artística, seja no seu tratamento técnico e a sua construção narrativa, tal como nos conceitos e temas que debate. 

Tal como nos seus trabalhos anteriores, Garland volta a envolver as histórias fantasiosas e de ficção científica com conceitos filosóficos e morais, o que eleva-se exponencialmente os seus projectos e os torna um must watch

Neste “DEVS” vem à discussão o determinismo da vida, ou seja, a ideia de que tudo está predeterminado , toda a nossa vida está calculada, todas as nossas acções escolhidas por algo superior a nós. No fundo, debate a inevitabilidade de seguirmos o nosso caminho de acordo como está previsto, sem termos qualquer sentido de vontade própria nas nossas escolhas. 

Tudo isto é interessante em si mesmo, numa discussão teórica. Porém, tudo ganha uma nova dimensão aterradora quando existe algo comprova que esta ideia é real, que nós não temos qualquer controlo sobre a nossa vida, desde o nosso nascimento até à hora da morte. Ou temos?

Garland não se preocupa em dar-nos respostas concretas sobre este tema. O que ele pretende é levar-nos a pensar sobre o mesmo, ao mostrar-nos diferentes perspectivas sobre o assunto tendo como guias as personagens que povoam a série. 

E, nesse aspecto, tudo corre de feição a este “DEVS”. As personagens são interessantes e bem aprofundadas no seu carácter, sem existir qualquer tipo de estereótipo ou caricatura. Com diálogos inteligentes e, por vezes dilacerantes, somos conduzidos por uma história intrigante e altamente viciante. 

E esse vício ocorre logo nos primeiros momentos do primeiro episódio. Seja pela fotografia exuberante e bela, uma banda-sonora experimental e que cria um ambiente de cortar à faca, ou por uma narrativa misteriosa em todas as vertentes, Garland depressa prende o espectador e só promete largá-lo nos momentos finais da série. 

Fotografia: Nick Offerman as Forest. CR: Miya Mizuno/FX

Porém, todos estes elogios não querem dizer que “DEVS” seja perfeita. E, infelizmente, um dos maiores feitos recaí sobre a nossa protagonista Lily. A interpretação de Sonoya Mizuno anda constante numa corda bamba entre o dormente e o ligeiro exagero, nunca consegui aplicar a dose emocional certa para que o espectador possa estabelecer uma empatia para com ela e a sua jornada. 

E este distanciamento entre Lily e a audiência é ainda mais agravada nos primeiros episódios devido ao facto de a sua investigação e a história do que acontece na DEVS e as pessoas da DEVS não se conseguirem conciliar ao início. Mais para o fim os caminhos de cada história começam-se a estreitar e o nós conseguimos apreciar melhor cada uma delas.

Porém, a história de DEVS e os seus contornos e deveras interessante e tem muito por onde se explorar, não apenas nos contornos do enredo mas também numa discussão a posteriori, numa questão filosófica e as implicações destas ideias nas nossas vidas reais. 

No fim de tudo, “DEVS” é mais um projecto fascinante vindo da mente de Alex Garland. Seja no mero sentido de entretenimento ou no sentido mais profundo e filosófico, Esta minissérie é imperdível e comprova Garland como um dos melhores realizadores do género que temos nos dias de hoje. 

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