Home FilmesCinema Chaos Walking: Holland e Ridley experimentam uma nova galáxia muito distante

Chaos Walking: Holland e Ridley experimentam uma nova galáxia muito distante

by João Pedro

“Chaos Walking”, protagonizado por Tom Holland (“Spider-Man”) e Daisy Ridley (“Star Wars), é baseado em “The Knife of Never Letting Go”, o primeiro romance de uma trilogia de Patrick Ness. 

Review – Spoiler Free

“Chaos Walking” incide na adaptação de um livro chamado “The Knife of Never Letting Go”, da série de romances de ficção científica escrita por Patrick Ness. Esta adaptação estava em desenvolvimento há quase uma década e passou por cerca de meia dúzia de argumentistas. Acreditem ou não, até Charlie Kaufman meteu lá a mão. Para piorar a situação, o filme – que acabou por ser realizado por Doug Liman – foi arquivado desde a estreia no circuito de festivais em 2019.

O filme é ambientado em 2257 D.C., num novo mundo, para onde os habitantes humanos viajaram quando o herói da história, Todd Hewitt (Tom Holland), era criança. Passado alguns anos, apenas os homens são deixados à sorte. As mulheres foram mortas pelos habitantes do novo planeta, que é o que Todd sempre ouviu do pai, Ben (Demián Bichir), e do responsável pela colónia (Mads Mikkelsen).

A questão é que todos conseguem ouvir os pensamentos uns dos outros se não existirem precauções. É o chamado “ruído”. A maioria dos homens conseguem controlá-lo, exceto Tom. Embora seja intimidado por alguns conhecidos, a vida do rapaz começa a melhorar até que uma nave espacial cai perto da sua casa. A único sobrevivente é uma jovem chamada Viola (Daisy Ridley), que se torna a “mercadoria” mais procurada do planeta. Os dois protagonistas unem esforços para manter Viola segura, com o sinistro Prentiss (Mads Mikkelson) a persegui-los.

Liman e a sua equipa fazem os possíveis para levar o conceito do “ruído” das páginas para o grande ecrã, ilustrando-o como uma nuvem ao redor da cabeça dos homens que oferece as imagens e sons dos pensamentos. Mas mesmo algo tão conceptual e diferente como o “ruído”, só pode ter impacto se a história oferecer algo para além de perseguir e ser perseguido. “Chaos Walking” é um híbrido de faroeste de ficção científica – mistura comunidades agrárias e viagens interestelares. O enredo da saga literária até é interessante, mas a adaptação acaba por ser extremamente banal. Os vários avanços e recuos nas filmagens criaram um filme coerente, mas sem graça.

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Não obstante, a meu ver, a dinâmica entre Holland e Ridley compensa algumas das deficiências espelhadas. Holland traz a sua estranheza característica de Peter Parker para o papel, com muito do humor resultante dos seus sentimentos óbvios por Viola, mas também há uma determinação cativante para provar que consegue proteger a rapariga. Em contrapartida, mais uma vez, Ridley apresenta uma liderança feminina potente (dentro do material frágil que lhe é apresentado).

O vínculo que eles desenvolvem é, certamente, um dos aspetos mais fortes do filme. Infelizmente, uma parte do elenco secundário, particularmente Mads Mikkelsen e David Oyelowo, são desperdiçados. Todos sabemos que Mikkelsen é excelente a interpretar um vilão complicado e com camadas, mas, neste filme, não recebeu tempo suficiente para desenvolver e explorar as motivações reais da sua personagem.

“Chaos Walking” podia ser uma aventura fascinante, mas falha, com a dinâmica central entre Tom Holland e Daisy Ridley a salvar parte da adaptação. O filme parece encaixar-se nas adaptações de “The Divergent” e “The Maze Runner”, que, infelizmente, já foram chão que deu uvas. Porventura, se existirem de facto planos para uma sequela, a abordagem terá de ser muito diferente.

Mudanças do livro para o filme – A partir daqui contém spoilers !

Em “Chaos Walking”, a história apresentada realizou várias mudanças quando comparado ao enredo do livro, o que, a meu ver, foi prejudicial para uma possível sequela cinematográfica. Mais notavelmente, o filme teve muita pressa em resolver o conflito entre os protagonistas e o seu inimigo. No entanto, esta não é a única diferença a frisar, sendo que muitas destas alterações criaram buracos suficientes para tornar “Chaos Walking” demasiado confuso.

Uma das maiores mudanças incide no facto de Todd ser mais velho do que nos livros. Na franquia original, a personagem está prestes a completar 13 anos, idade em que todos os rapazes de Prentisstown precisam de realizar um ritual específico para se tornarem homens. Todavia, os pais adotivos de Todd querem salvá-lo desse destino, e, por isso, mandam-no embora.

Em “Chaos Walking”, Todd é mais velho, embora ainda seja considerado jovem em comparação com o resto dos habitantes de Prentisstown. Prentiss, o responsável pela localidade, tem planos especiais para Todd, mas nunca revela quais são (apenas vê algo especial no jovem). Seja como for, na longa-metragem, não é devido a um ritual que o jovem foge, mas sim por encontrar Viola, e, desta feita, por ajudá-la a fugir de Prentiss, que se torna o vilão.

Contudo, nada disto faz parte do começo de “The Knife of Never Letting Go”, e, assim, o ajuste altera desde logo o paradigma inicial da história.

Em adição, uma das principais reviravoltas de “Chaos Walking” diz respeito ao que aconteceu com as mulheres no planeta recém-colonizado. No filme, Todd é criado para acreditar que todas as mulheres morreram devido ao facto da espécie nativa do planeta, os Spackle, as terem assassinado. No entanto, é mais tarde revelado que os homens de Prentisstown mataram todas as mulheres porque não podiam ver e ouvir os seus pensamentos, ao passo que as mulheres conseguiam devido ao fenómeno chamado “ruído”.

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No livro, a explicação para a falta de mulheres em Prentisstown é diferente: os homens afirmam que um verme espalhado pelos Spackle matou todas as mulheres e infetou os homens com o “ruído”. Isso faz com que os homens iniciem uma guerra com os Spackle, para impedir a disseminação do germe mortal e faz com que Todd acredite que é portador da doença. No final de contas, porém, a grande reviravolta da história é a mesma – os homens de Prentisstown mataram as mulheres.

Todavia, tal como já mencionei anteriormente, o livro atribui o “ruído” a um verme espalhado por espécies indígenas do planeta. Além disso, todos os seres masculinos, independentemente da espécie, têm o “ruído”. Como resultado, nos livros, os pensamentos de Manchee, o cão de Todd, e de outros animais que eles encontram na floresta, também podem ser vistos e ouvidos. Por outro lado, no filme, vemos que o “ruído” afeta os homens, só que não se estende aos animais

Em contrapartida, o tratamento que “Chaos Walking” dá aos Spackle é muito diferente do que os livros. No romance, o verme que causa “o ruído” provoca a guerra entre os colonos humanos e os Spackle. Consequentemente, os humanos capturam a maioria da espécie para trabalho escravo. Por outro lado, no filme, os Spackle são usados como informação de fundo. Apenas um membro da espécie aparece no ecrã e não é escravizado, isto é, a sua relevância é quase nula.

Por fim, o filme e o livro retratam a entrada de Viola na história de forma diferente. No filme, a rapariga faz parte de uma nave exploradora enviada ao planeta para preparar a chegada do próximo grupo de colonos. Depois de se tornar a única sobrevivente da tripulação e perceber que os homens de Prentisstown são perigosos, ela foge com a ajuda de Todd. No livro, Todd já está em fuga quando encontra Viola na floresta, sendo que a história é substancialmente modificada.

Todavia, nada consegue bater a alteração efetuada já no final do filme. Em “Chaos Walking”, Todd e Viola viajam até à cidade de Farbranch para encontrar um lugar seguro. Na história original, eles também vão para Farbranch, mas, depois disso, o filme e o livro vão em direções completamente diferentes.

O filme mostra a responsável de Farbranch a enviá-los para uma terceira comunidade chamada Haven. Quando Prentiss aparece em Farbranch, ele continua a perseguir Todd e Viola até que todas as personagens acabam por chegar aos destroços da primeira nave que trouxe os humanos àquele planeta.

É aqui que a luta final do filme acontece, sendo que Viola e Todd nunca chegam a Haven. Não é o que acontece no primeiro livro, ou em qualquer um deles. Os dois protagonistas nunca param numa nave para fazer contacto com o povo de Viola no espaço sideral. Em vez disso, continuam a correr e, eventualmente, chegam a Haven. A diferença é que Prentiss consegue vencê-los, declara-se presidente do Novo Mundo, e captura Todd e Viola. O filme tem pressa para mostrar o confronto final com Prentiss, e, desta feita, elimina e ignora muito da ação dos livros.

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