Vamos ao cinema com a RTP! #3 – “La Notte”

“La Notte” consolidou a reputação de Michelangelo Antonioni como autor dedicado a um exame filosófico da existência humana. Esta obra foi considerada parte da “trilogia da alienação” de Antonioni, que incluía L’Avventura (1960) e L’Eclisse (1962). Todos estes filmes concentram-se nos desenvolvimentos internos que ocorrem nas mentes dos personagens principais. 

Os filmes de Antonioni costumam ter performances muito bem-sucedidas, mas os retratos são controlados e moderados. No caso de “La Notte”, Antonioni contava com duas personalidades que estavam no auge das suas carreiras: Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau. 

As performances neste filme são tão controladas, que não abre espaço para o tom teatral imposto noutras obras que protagonizaram. 

De facto, é interessante comparar o retrato contido de Mastroianni em “La Notte”, de um indivíduo reflexivo inundado por superficialidades da classe alta, com o desempenho mais enfático do personagem semelhante de La Dolce Vita (1960), de Federico Fellini.

Por sua parte, Moreau alcançou a fama com representações dramáticas em “Ascenseur Pour L’Échafaud” (1958) e “Les Amants” (1958), de Louis Malle. Depois, protagonizou “Jules et Jim” (1962), de François Truffaut. Não obstante, tal como Mastroianni, ela é extraordinariamente contida, quase melancólica, neste “La Notte”. 

A história de La Notte traça os eventos num período de aproximadamente 24 horas, que espelha a crise conjugal de um casal próspero em Milão. 

Giovanni Pontano (Mastroianni) é um romancista famoso, prestes a apresentar a sua última obra. Antes disso, vai visitar um velho amigo, que está hospitalizado, na companhia de Lidia (Moreau), a sua esposa. 

Ver o amigo num estado de fragilidade e arrependimento inexorável, ao revirar os destroços da própria vida, desencadeia um período de reflexão para o casal. 

O enredo passa por quatro fases, cada uma associada a um local específico. Esta é uma característica de Antonioni, para quem a paisagem específica e o ambiente de uma cena definem o clima e são um ingrediente essencial da narrativa. 

A última dessas quatro fases é consideravelmente mais longa que as outras, e ocupa mais de metade do tempo de duração do filme.

Vários críticos expressaram irritação com “La Notte”, e declamaram que o filme é apenas um relato banal do tédio conjugal. Porém, a meu ver, há algo mais profundo que isso. 

O tema principal em análise diz respeito à questão do que sustenta os nossos interesses e as paixões que desenvolvemos longo do tempo. E, subjacente a essa pergunta está a natureza da narrativa. 

Quando estamos envolvidos num projeto, entremos num tipo de narrativa. Metaforicamente, todas as narrativas são como uma demanda. Existe um destino planeado e, possivelmente, surgem obstáculos que temos de superar antes de alcançar esse destino.  

Antonioni explora os aspetos dessa aventura ao longo do filme, através dos quatro personagens principais.

Quanto a mim, a abordagem do cineasta não exalta qualquer tipo de tédio, a partir do momento em que é analisada a passagem do tempo. 

Isto porque a classe “alta” pode usar bebidas mais caras para agir como lubrificante social, mas os sentimentos de inadequação e tédio existencial são tão verdadeiros para quem bebe champanhe ou uma simples cerveja.

Seja como for, todos temos problemas de comunicação, porque não existe uma fórmula perfeita para transmitir as complexidades mínimas dos nossos pensamentos e emoções.

As performances de Mastroianni e Moreau são notáveis. Mastroianni tem essa presença cheia de charme e inteligência, mas também um senso de humildade ao passar a incerteza do escritor, que considera que o seu intelecto pode não oferecer assim tanto ao mundo. 

Em contrapartida, Moreau é muito mais fascinante na maneira como transmite a noção de uma mulher frustrada, que se sente perdida no seu mundo. 

“La Notte é um filme encantador e exótico, graças ao seu estilo visual arrebatador, mas abstrato. É um filme que explora a alienação de maneira mais assustadora, bem como a ideia de um amor que pode desaparecer. Embora não seja um filme acessível devido à falta do enredo aparentemente forte, capta a veracidade fulcral do término de uma relação. 

É um filme fenomenal de Michelangelo Antonioni, que está disponível no catálogo da RTP Play.

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