The Morning Show: As Repercussões de uma Cultura de Silêncio

The Morning Show foi uma das primeiras séries a ser lançada pela Apple TV+ e carrega consigo o peso da mensagem do movimento #MeToo.

Criado por Jay Carson e desenvolvida por Kerry Ehrin, a série baseia-se num livro de 2013, Top of the Morning: Inside the Cutthroat World of Morning T, que aborda a guerra de audiências entre os programas matinais das estações televisivas.
Durante o desenvolvimento da série rebentou o escândalo #MeToo, um movimento contra o assédio e agressões sexuais contra mulheres e esse tópico foi absorvido e tornado uma das bandeiras do enredo.

Esta superprodução teve um investimento de cerca de 15 milhões por episódio e é estrelado por uma série de pesos pesados de Hollywood como Jennifer Aniston, Steve Carell, Reese Witherspoon ou Billy Crudup.

A cronologia dos acontecimentos inicia-se quando é divulgado pela comunicação social um alegado escândalo sexual que envolve Mitch Kessler (Steve Carell) um dos co-apresentadores do programa The Morning Show. São divulgados relatos de vitimas de agressões sexuais às mãos do apresentador, todas elas atuais ou antigas colaboradoras da estação televisiva.

A direção da UBA, estação televisiva onde é produzido o The Morning Show, demite prontamente o apresentador e o futuro do programa fica hipotecado, não só pela ameaça de perda de audiências como pelo fantasma da existência de uma cultura de silêncio dentro da estação que permitiu que estes abusos sexuais tivessem ocorrido.

As acusações de conduta imprópria têm reflexos distintos em várias personagens sendo possível espelhar um rótulo de vítima ou de conivência na maioria dos personagens apresentados.

Alex Levy (Jennifer Aniston), a coapresentadora do TMS, tenta gerir a situação apressando-se a afastar a má conduta do seu ex-colega da cultura do canal e reinventando-se como o rosto único e principal do programa.

A instabilidade sobre o futuro do programa é palpável e as consequências das revelações feitas parecem hipotecar várias personagens e as respetivas carreiras. É neste caos que surge a possibilidade de Bradley Jackson (Reese Witherspoon) se assumir como a nova co-apresentadora do The Morning Show.

As personalidades e ambições das duas apresentadoras do TMS são conflituosas e antagónicas e parte da trama centra-se no confronto de ideais e posições que ambas adotam.

Enquanto Alex Levy resguarda-se e aborda os assuntos de forma superficial, Bradley Jackson coloca o dedo na ferida, tem um discurso pouco perfumado e desconstrói o TABU acerca de temas fraturantes que, maioritariamente, afetam as mulheres.

É de forma espaçada mas intensa que a polémica dos escândalos sexuais se desenvolve, episódio atrás de episódio, em cada personagem e são feitas inúmeras jogadas de bastidores que visam a salvação profissional e pessoal dos trabalhadores da UBA (estação televisiva).

Destaque para a performance de Billy Crudup, como Cory Ellison, diretor do departamento de informação da UBA, que protagoniza um papel excecional. Com a ambição de chegar a presidente da UBA, vai manipulando o percurso de todas as personagens conforme as suas intenções. Atribui uma camada de inteligência notável ao seu desempenho charmoso e transforma-se automaticamente numa das personagens mais impactantes da série.

Ao nível de produção percebemos que está longe de ser uma obra prima mas cumpre em todos praticamente todos os aspetos. Os diálogos carecem de humanidade e algumas interpretações, como a de Reese Witherspoon, têm flutuações gritantes de personalidade que retiram alguma autenticidade à série.

No entanto, a abordagem ao tema das agressões sexuais a mulheres em contexto laboral é trabalhado de forma exemplar sendo contextualizado as várias perspetivas do incidente. Conseguimos incorporar o lado das vítimas, muitas vezes impotentes e incapazes de confrontar a situação, do agressor, que constrói uma persona de desculpabilização e inocência, e principalmente o lado dos que assistem e perpetuam um silêncio que pode ter consequências devastadoras.

A dignidade e valência da mulher é julgada em praça pública e muitas das suas ambições e ações são julgadas e hipotecadas por um grupo restrito de homens poderosos que é suportado por uma cultura de silêncio de pessoas coniventes.

Esta série faz-nos olhar para o nosso mundo real e perceber que muitos dos dogmas e rótulos atribuídos em contexto social e de trabalho está mascarado por situações que são encobertas nos bastidores sem que haja coragem ou ajuda para que possam ser trazidas a público.

A série está disponível na Apple TV+, são 10 episódios de sensivelmente 1 hora cada e a segunda temporada também já se encontra disponivel.

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