Tenet: Um Mundo no “Inverso” da Medalha

Considere o seguinte: e se fosse possível reverter o processo de como os acontecimentos no mundo à nossa volta ocorrem? O que é que mudaria na sua vida se, quando bebesse um copo de água, ele congelasse na sua boca ou, quando corresse, sentisse o vento nas costas e não na cara? Parece ser um conceito absurdo, mas se considerarmos que esta é a premissa do mais recente filme de Christopher Nolan, as coisas começam a fazer sentido.

Tenet é o novo épico thriller de ação do aclamado realizador que nos trouxe Dunkirk, Interstellar e Inception e que agora conta a história de um agente secreto no mundo da espionagem internacional a quem é entregue a incomensurável missão de salvar o mundo de uma ameaça que é descrita como sendo pior que um holocausto nuclear.

A ação inicia-se com um golpe encetado numa ópera lotada na cidade de Kiev, no qual somos apresentados ao Protagonista (John David Washington) – este mesmo é o seu nome – e nos é imediatamente incutida uma sensação de urgência e de uma constante luta contra o tempo que, aliás, perdura até ao final do filme. Nesta sequência frenética o Protagonista tem de alcançar um camarote específico e depois conseguir escapar incólume. É nesta cena que temos a primeira introdução à tecnologia apelidada de “inversão” – o processo que faz com que certos objetos que tenham sido “invertidos” sigam um percurso oposto ao que teriam normalmente – e que é ilustrada com uma bala que, em vez de ser disparada, sai de um buraco na parede e volta para o cano da arma a alta velocidade.

A “inversão” é o conceito central do enredo e é uma ideia com que Nolan “brinca” nas várias cenas de ação e que, por sua vez, as tornam nas mais arrojadas do filme.

©2019 Warner Bros. Entertainment, Inc. All Rights Reserved.

Todas estas cenas são encenadas ao mais alto nível: desde as extensas e precisas coreografias que, por vezes, chegam a envolver dezenas de atores e figurantes, aos efeitos práticos e visuais empregues nos momentos em que temos uma parte da ação a decorrer normalmente, em simultâneo com outra a desenrolar-se do futuro para o passado e, sem esquecer, a intrépida banda sonora composta por Ludwig Göransson. Munidas de uma perfurante bassline (linha do baixo), as peças criadas pelo compositor sueco injetam uma dose de adrenalina nas cenas em que são utilizadas e conferem-lhes uma violência e agressividade inédita, até agora, nos filmes de Christopher Nolan.

Na representação destaco a estoica e elegante Elizabeth Debicki, no papel de Kat e a parceria entre o Protagonista e o charmoso e engenhoso Neil (Robert Pattinson) que, pela sua dicotomia, fornecem uma boa dose de entretenimento sempre que partilham o ecrã. Já Kenneth Branagh prende-se ao estereótipo na sua interpretação de um oligarca russo e, ao juntar um sotaque subdesenvolvido, acaba por criar uma caricatura do que seria um antagonista intimidante.

“Tenet” tem uma estrutura narrativa complexa e, por isso, ocasionalmente, cai no erro de usar as suas personagens como meros veículos de exposição das mecânicas do filme ou como adereços cuja única função é encaminhar o Protagonista para o seu próximo destino.

© 2020 Warner Bros. Entertainment Inc. All Rights Reserved

Por outro lado, Christopher Nolan cria um enredo elaborado que introduz conceitos que alteram a definição da linearidade da passagem do tempo, mas que se cinge às regras que estabelece para si mesmo. Através da atenção ao pormenor e da colocação deliberada de pequenos detalhes ao longo do filme, Nolan cria uma história (quase sempre) consistente e deixa também um puzzle para os fãs mais dedicados descobrirem e solucionarem.

Se, tal como eu, esperavam ansiosamente que Tenet chegasse às nossas salas de cinema não hesitem em ir ver o filme (de preferência numa sala IMAX). E caso vejam algo que não faça muito sentido, sigam o conselho que, a certa altura, é dado ao Protagonista: “ Não penses muito sobre isso, segue o teu instinto.”.

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