Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story: O que queres saber?

Martin Scorsese tem uma história rica de documentários em torno da música. Entre 1966 e 2019, o cineasta concebeu um total de 19 documentários ao redor de várias formas de trabalho neste meio. “The Last Waltz”, o filme que concebeu em torno dos The Band, grupo da costa oeste que acompanhou Bob Dylan durante alguns anos, talvez tenha sido o melhor. Mas hoje, para assinalar o octogésimo aniversário de Dylan, entrego destaque a “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story”. 

“Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese” revisita a digressão Rolling Thunder Revue, que decorreu no ano de 1975. Mas, muito mais do que assumir a função de documentário, este trabalho serve para expor a mente de Bob Dylan. Não é bem uma peça de género musical, nem se desenrola como um evento ao vivo. Também não é um documentário histórico, mas, de alguma forma, Martin Scorsese consegue juntar os melhores elementos de todas estas temáticas para entregar uma visita espetacular à década de 1970, bem como à história de um evento que se espalhou pela América antes de desaparecer na obscuridade.

Não me lembro de nada do Rolling Thunder. Quer dizer, foi há tanto tempo que eu ainda não era nascido. O que queres saber?” 

A digressão contou com 15 atrações, incluindo o regresso de Dylan, que tinha deixado essas andanças há 8 anos. Por conseguinte, Rolling Thunder Revue assumiu um tom totalmente diferente por ter sido direcionada para locais mais pequenos, e em auditórios, para falar ao público mais jovem, o que tornou a experiência mais íntima. Além de Dylan, a digressão contou com nomes como Joan Baez, Roger McGuinn (The Byrds), Joni Mitchell e Ronee Blakely (mais conhecida por interpretar Barbara Jean em “Nashville”, de Robert Altman). Ao todo, foram 57 concertos em duas etapas individuais.

Após uma breve introdução no documentário, onde vemos o próprio Bob Dylan a ser entrevistado, recuamos no tempo para um ano antes do evento. Ficamos a saber que, embora tenha interrompido as digressões em 1966, Dylan acabou por reunir-se com os The Band  em 1974. Foi neste ponto que Gianopulis começou a lançar a ideia para uma Revue, uma colaboração entre artistas de rock’n’roll para um evento alternativo. Todavia, a parte do Rolling Thunder é um assunto debatido entre os diferentes artistas. Alguns afirmam que foi inspirado pelo som de um trovão pela paisagem, ao passo que outros sentiram que o nome coincidiu, ironicamente, com a operação militar da Guerra do Vietname.

Em contrapartida, Dylan reflete sobre a digressão e, geralmente, entrega respostas divagantes, pretensiosas ou poéticas. Existe algo de humilde na sua abordagem, quando reconhece que a digressão foi um fracasso comercial, porém, o facto de acrescentar que foi um sucesso artístico parece adequado, dada a forma como Scorsese a enquadra como um evento que captou o pulso da América numa altura crucial. A entrevista de Dylan contribui principalmente para a aura de lenda que se gerou em torno da Rolling Thunder Revue.

Embora a entrevista possa atrair espetadores para o filme de Scorsese, o trunfo recai no trabalho de arquivo. Algumas filmagens meticulosamente restauradas, nomeadamente de gravações feitas por David Ayers, Howard Alk, Paul Goldsmith e Michael Levin, facultam o doce de algumas das performances energéticas de Dylan durante a digressão, enquanto subia ao palco com a sua caracterização branca e pesada. (Aparentemente, porque os KISS fizeram o mesmo e ele achou que a ideia seria boa).

Scorsese e David Tedeschi apresentam muitas das apresentações musicais de Dylan na totalidade, para entregar o efeito completo de estar nos locais (de tamanho modesto) na temporada da Revue.

O realizador tece uma tapeçaria musical que vai relacionar Dylan às maiores correntes de mudança, tanto dentro da cena artística como fora das ruas da América. Surgem grandes momentos, como a apresentação de uma jovem Patti Smith, conversas sobre o Vietname e o futuro da nação. As imagens de arquivo são especialmente fantásticas quando mostram Dylan fora do palco, ao inspirar-se nas pessoas que vai visitando ao longo do tempo ou, em adição, quando reflete sobre a estrada que o guiou até àquele momento (como uma viagem atenciosa com Allen Ginsberg para ver o túmulo de Jack Kerouac ou uma jam session na casa de Gordon Lightfoot onde Joni Mitchell toca a sua nova música – “Coyote”).

Ao mesmo tempo que “Rolling Thunder Revue” desvenda o significado da digressão e da música de Dylan, Scorsese enfatiza o elemento da lenda, ao convidar vários intervenientes para refletirem sobre a experiência em entrevistas livres. Joan Baez fala sobre a sua paixão em cantar com Dylan, ao mesmo tempo que as imagens dos seus duetos lançam mais heat do que Bradley Cooper a cantar com Lady Gaga na cerimónia dos Óscares. Em contrapartida, Ruben “Hurricane” Carter, talvez no melhor capítulo do filme, fala sobre o interesse de Dylan no seu caso e na música que o ajudou a atingir a liberdade. Sharon Stone aparece de forma intermitente ao recordar o facto de ter acompanhado a mãe à Revue, apenas para ser notada por Dylan.

O filme tem todos os tipos de anedotas, como esta história de Stone, que soam muito boas ou coincidentes para ser verdade, e assim que Michael Murphy aparece na pele de Jack Tanner (o seu personagem em “Tanner ’88”, de Robert Altman), que recorda a campanha com Jimmy Carter, fica claro que Scorsese também está a jogar com a ficção. A lenda mítica da digressão é o que mais importa.

Dentro das liberdades e elementos da ficção combinados de forma harmoniosa e divertida ao longo do documentário, surge um ensaio maior sobre a memória.

É uma odisseia musical ambiciosa e extensa. É uma espécie de reinvenção para Scorsese, tal como a Rolling Thunder Revue foi para Dylan. É tudo o que se deseja para um documentário musical, visto que proporciona uma espécie de concerto inesquecível, ao passo que oferece as histórias que tornam a música tão especial. Não há melhor forma de celebrar os 80 anos de Bob Dylan, do que pelas mãos de Martin Scorsese.

“A vida não se trata de nos descobrirmos ou descobrir seja o que for. Trata-se de nos criarmos. E criar coisas.”

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