Filmes que nos Dão Música #9: Men In Black – Will Smith

Esta é a história sobre a primeira música de Will Smith, o ator que acreditava que podia ser um rapper diferente dos demais. 

Filme – Men in Black (1997)

Entre o final da década de 80/início de 90, o mundo da música foi uma autêntica loucura, sobretudo no que ao rap e hip-hop diz respeito. As discográficas olhavam para os rappers como a nova fonte de fazer dinheiro e ofereciam contratos milionários. Por sua vez, estes gostavam de mostrar toda a ostentação devido a tais contratos. Os temas das músicas eram quase sempre problemas sociais, minorias étnicas e geralmente os rappers tinham uma fracção e gangs rivais. 

Estas rivalidades foram responsáveis por inúmeros assassinatos de rappers e a sociedade catalogava-os como pessoas perigosas, se bem que estes até gostavam de o ser.

Quem tinha uma visão diferente destes estilos de músicas era o jovem Will Smith. Na sua cabeça, o rap e hip-Hop podia ser uma forma de humor e de unir pessoas, e não o estereótipo criado pela sociedade. A fórmula usada por Will era pegar em hits pop da década de 80, aproveitando batidas conhecidas e dar uma roupagem nova, introduzindo rimas rápidas e com algum sentido de humor.

É então de Will conhece Jeff Townes, mais conhecido por Dj Jazzy Jeff. O Dj tinha o objectivo de singrar na comunidade Hip-Hop de Filadélfia, que o levaria a um contrato com uma discográfica. Os dois juntaram-se para criar o projecto Dj Jazzy Jeff & The Fresh Prince, com uma sonoridade fresca, longe de todo o ódio recorrente da altura. Já o pseudónimo de Will, Fresh Prince, era um sucesso pelas rimas e sobretudo a maneira humorística com que criticava a sociedade.

A banda rapidamente torna-se um fenómeno muito superior ao que esperavam e em 1989 ganham o Grammy de Melhor Álbum Rap. Com o sucesso, chega também uma oferta para Will: Uma série de televisão sobre o seu pseudónimo! E assim, em 1990, estreia The Fresh Prince Of Bel-Air que rapidamente o transforma numa celebridade mundial.

Com tamanho sucesso, é com alguma naturalidade que o jovem ator começa a receber convites para fazer filmes. Contudo, Will foi fiel a Jazzy Jeff e concluiu o contrato que tinha com a discográfica em conjunto com o Dj para mais 3 álbuns. Em 1994, Will estava focado apenas na carreira de ator, mas nunca escondeu em público que tinha o desejo de lançar um álbum a solo.

A sua carreira estava de vento em popa, pois cada filme que saía consigo no elenco era quase sempre sucesso garantido, sobretudo Independence Day de 1996 que foi a grande prova de fogo para Will após o final de Fresh Prince of Bel-Air.

No início de 1995, a Columbia Pictures consegue adquirir os direitos para fazer o filme baseado na banda desenhada da Marvel Comics, Men in Black. A premissa era simples, fazer um filme sobre um recruta para uma organização secreta que controla toda a vida alienígena na terra.

O filme iria ser realizado por Barry Sonnenfeld, que tinha ficado conhecido pela adaptação ao cinema de The Addams Family, que foi uma adaptação bastante elogiada sobretudo em termos de imagem e o design foi um autêntico regozijo para os fãs da série de televisão com o mesmo nome da década de 60. A Barry foi pedido para fazer o mesmo com Men In Black, ou seja uma adaptação fidedigna das BDs.

Barry tinha um elenco de luxo em Addams Family e esperava que essa boa experiência servisse de portfólio para recrutar os atores que queria para os papéis de Agent K, o mentor e Agent J, o recruta…e não foi isso que aconteceu… O papel de Agent K estava destinado a Clint Eastwood e o Agent J a Chris O´Donnell. Ambos leram o guião e acharam a ideia pouco atractiva, sobretudo Chris, que tinha acabado recentemente as filmagens de Batman Forever e não queria fazer novamente o papel de recruta como Robin.

É então que os estúdios contratam Steven Spielberg como produtor executivo do filme que prontamente sugere Tommy Lee Jones para o papel de Agent K. Tommy recusa uma primeira abordagem, pois tal como Chris, vinha de Batman Forever e queria afastar-se de filmes de fantasia. Contudo, numa segunda abordagem de Spielberg, Tommy acaba por ceder. Spielberg prometera ao actor que o guião seria revisto e, para que isso pudesse acontecer, seria fundamental arranjar o mais rapidamente possível o ator que representasse Agent J.

A segunda escolha para o papel de Agent J foi o actor David Schwimmer, famoso pelo papel de Ross Geller na série Friends. David não pôde aceitar o papel devido ao seu contrato. 

Após mais um dia de infortúnio e com os estúdios a exigirem prazos, Barry (o realizador do filme) chega a casa quase em desespero por não ter um ator para o papel principal. Ao contar o sucedido à sua esposa enquanto estavam sentados no sofá, começa mais um episódio de The Fresh Prince of Bel-Air na televisão. A esposa de Barry via todos os episódios religiosamente e é nesse momento que pergunta ao marido se Will Smith não seria uma boa escolha para o papel. Nessa noite, Barry foi a um Blockbuster e alugou todos os filmes disponíveis com Will Smith, visualizando-os pela madrugada dentro.

No dia seguinte, Barry fala com o agente de Will, mas fica a saber que o ator estava a acabar as gravações de Independence Day e que, depois disso, queria aventurar-se num álbum a solo. Contudo, o realizador insiste em falar com o Will que aceita falar sobre Men in Black e ler o guião do filme.

O ator não ficou agradado com a sua personagem ao início e é então que entra outra vez em cena Steven Spielberg. Tal como Tommy Lee Jones, Will Smith quer que o guião seja revisto, algo que Barry recusou, visto que estava a perder a identidade do seu filme. 

Após uma longa reunião entre estas três partes, Spielberg consegue fazer com que todos fiquem satisfeitos. A personagem de Will Smith, o Agent J, seguiria o guião de Barry mas podia dar um toque pessoal com as suas piadas e carisma. Outro ponto que Will Smith propôs foi escrever e gravar uma música para a banda sonora. O estúdio aceitou a ideia de Will, visto que poderia ser um Boost importante para a divulgação do filme, tendo em conta que qualquer projeto com o ator era quase automaticamente rentável e neste caso todas as partes ficavam a ganhar.

Will conseguiu ainda que a música pudesse ser usada também no seu futuro álbum a solo sem qualquer contrapartida. A Columbia, ciente da vontade do ator, apresenta então o contrato para Men in Black com as ressalvas exigidas e ainda um contrato para dois álbuns a solo.

O ator começa então a compor o tema principal da banda sonora após ler o guião, pois a letra seria sobretudo para introduzir e explicar quem são os Men In Black. O tema, tal como o início da sua carreira musical, seria baseado numa batida ou música dos anos 80 que Will conseguisse enquadrar com as rimas.

Durante uma pesquisa pelas suas músicas favoritas, o actor encontra Forget Me Nots de Patrice Rushen editada em 1982. Com um sample (batida, tom que dá o mote) a música já não era novidade para ninguém, ela foi usada em diversas ocasiões como anúncios, discos de dança e até mesmo a base da música Fastlove de George Michael, mas o que realmente chamou a atenção de Will é logo o segundo verso da letra original: “to help you to remember”.

O ator mudou a frase para: “they won´t let you remember” em homenagem ao mais popular Gadget dos MIB, o Neuralyzer, dispositivo que apagava a memória de qualquer pessoa.

Will decide usar então a música completa, alterando apenas a letra e faltava apenas Patrice Rushen conceder os direitos. A cantora e a compositora da música, Theresa McFaddin, consegue então um acordo de 20% de todos os Royalties bem como o seu nome gravado na ficha técnica, algo que lhes iria gerar mais lucro do que qualquer música que compuseram e com 15 anos de diferença do original, algo que seguramente já não estariam à espera.

Para gravar apenas a frase “Here come The Men in Black”, Will Smith conta com a sua amiga de longa data Cherly “Coko” Clemons, que era uma estrela em ascensão na década de 90 devido ao seu grupo Sisters With Voices. Cherly ao princípio não aceitou qualquer tipo de benefícios por entrar na música, mas após insistência de Will, a cantora iria também receber uma boa fatia dos lucros. Facto curioso é que pouco depois do lançamento as Sisters With Voices acabaram e muito por decisão de Coko.

O videoclip de Men in Black foi gravado no intervalo das gravações e quer Will Smith e o director do mesmo, Robert Caruso tinham luz verde para usar qualquer cenário do filme. Para a cena inicial foi usado o pequeno teaser que serviu para promover o filme, onde num corredor Tommy Lee Jones apresenta quem são os Men In Black. Contudo, o final tem duas versões: a mais conhecida onde Will Smith acaba a dizer “sorry” e aponta-nos o Neuralyzer, na outra acontece quase a mesma coisa mas desta vez depois de disparar o flash vamos parar ao corredor do inicio do video.

A 16 de Junho de 1997, chegava então às televisões e rádios Men in Black a primeira música a solo de Will Smith que foi praticamente número 1 nos tops de todo o mundo e por lá ficou o verão inteiro! Ao contrário do habitual, a música não saiu em formato single nos Estados Unidos, em mais uma jogada de génio do actor a música só poderia ser comercializada através da compra da banda sonora completa ou esperar por novembro de 97 pelo seu álbum a solo, Big Willie Style.

Will Smith limpou quase todos os prémios das cerimónias da MTV devido à música, e um ano depois voltaria a limpar tudo devido aos outros singles do seu álbum a solo!

O ator ganhou ainda dois Grammys devido ao álbum e ganhou também o Grammy de Melhor Performance Rap devido a Men in Black e mostrou sobretudo que os rappers podiam ser bem sucedidos sem terem de recorrer a letras opressivas e críticas à sociedade.

O filme chegava aos cinemas em Julho de 1997 com um orçamento a rondar os 90 milhões de Dólares e foi considerado uma aposta de risco… Apesar disso, o filme teve um lucro na ordem dos 500 milhões de dólares e mostrou que a premissa estava certa: em tudo o que Will entrava, era sucesso garantido!

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