Filmes que nos dão Música #7: Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me – U2

No dia 6 de Junho de 1995, era lançada uma das melhores músicas de sempre dos U2 e arrisco-me a dizer uma das melhores de banda sonora de sempre. Esta é a história de “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me”, uma escolha óbvia no dia do seu 25º aniversário!

Filme: Batman Forever

Há 25 anos, chegava-nos a primeira amostra da banda-sonora de Batman Forever, o álbum teria 2 singles e seria um sucesso comercial muito devido a esta música e a Kiss from a Rose de Seal. Mas ao contrário da música de Seal, “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me” é um original (pelo menos nunca foi lançada anteriormente noutro álbum, já que para os U2 a música estava longe de ser recente).

O início desta epopeia leva-nos à última noite da década de 80, a 31 de Dezembro de 1989. Os U2 dão um concerto de ano novo na sua terra de natal, Dublin, e no final Bono dirige-se ao público e diz: “A banda vai parar e vamos todos voltar a sonhar outra vez”.

Quase todos ficaram com a sensação que a banda tinha acabado ali, visto que a mesma vinha de uma fase de enorme influência americana e de uma digressão exaustiva. Os críticos tinham sido severos sobre o último álbum, chamando mesmo à banda de pretensiosos e acusando-os de falta de originalidade, dizendo que eram um grupo europeu com sonoridade americana que estava tentar ensinar os americanos a gostar da música popular deles…

Após este anúncio e uma paragem de 6 meses, começam um novo trabalho. Longe dos holofotes da popularidade, os músicos procuram novas influências e é então que se viram para uma nova Europa após a queda do muro de Berlim e escolhem esta cidade para gravar o próximo álbum. Os U2 começam então a construir músicas rock com forte influência em euro-dance, género de música que estava em voga no início da década de 90.

O resultado desta incursão foi um dos mais aclamados álbuns de sempre, Achtung Baby. O novo registo chega às lojas em Novembro de 91 e vende 8 milhões de cópias. Em Fevereiro de 92, os U2 dão início a uma das mais memoráveis digressões de sempre, a Zoo Tv. tour é um espectáculo nunca antes visto, com televisões gigantescas, carros pendurados e uma rede de broadcasting que transmitia tudo o que se passava para uma rádio e televisão criadas de propósito para divulgar imagens e som do concerto bem como notícias bizarras.

Outro dos pontos altos são os alter egos criados por Bono, são eles MacPhisto (um diabo artístico que discutia política, moral e que durante os concertos fazia chamadas telefónicas onde encomendava 500 pizzas, chamava táxis e muitas das vezes para a Casa Branca ao ponto em que George Bush pedir publicamente para Bono parar), o Mirror Ball Man (egocêntrico americano) e The Fly (uma mistura de imagem de vários músicos famosos que Bono adoptou como sua).

A digressão é um sucesso e em novembro de 1992, a banda dá o último concerto na cidade do México. Contudo, o agente da banda, Paul McGuinness, tem várias propostas para mais concertos da Zoo Tv pelo mundo inteiro (incluindo Portugal) e propõe à banda mais um ano de digressão. A banda aceita mas só voltou ao activo em Maio de 1993 na Europa, o que dava um buraco de 6 meses que poderia ser usado para férias, mas Bono e Edge tinham outra ideia.

O vocalista e o guitarrista tinham ficado com tantas ideias e músicas inacabadas para Achtung Baby e queriam usá-las para fazer um EP. Segundo eles, este tinha que sair o quanto antes pois o álbum e a digressão estavam a ser um sucesso estrondoso e este novo lançamento iria capitalizar ainda mais o estado de graça.

O EP já tinha uma linha mestra, seriam 5 músicas e teria o nome de Zooropa para promover a nova digressão europeia da Zoo Tv. O problema é que, à medida que as gravações estavam a avançar, Bono começa a ter novas ideias para músicas e rapidamente paira no ar que Zooropa não seria um EP, mas sim um verdadeiro álbum. Este processo criativo foi tão longo que Zooropa não estava pronto quando a tour arrancou em Maio.

Para concluir o álbum, a banda fez uma pequena loucura: como o palco era complexo, as datas da tour aconteciam quase sempre dia sim, dia não. Assim os U2 mal acabavam um concerto apanhavam um jacto privado para Dublin com o intuito de acabar o álbum, lá ficavam até à manhã do dia do próximo concerto. Nessa manhã viajavam para a próxima cidade da tour europeia, tocavam e depois deste voltavam novamente para Dublin para acabar o álbum e esta foi a rotina da banda durante 1 mês.

Os U2 descrevem esta fase como uma loucura boa, pois estavam em pleno processo criativo. Para terem uma ideia, o que originalmente eram 5 músicas, acabou com o número absurdo de 48!

A ideia dos U2 era ter um registo mais conceptual, com uma mistura de músicas que tinham ficado de fora de Achtung Baby por terem uma sonoridade bem diferente do resto do álbum. Assim a banda tenta reduzir o número de músicas através de um processo pouco ortodoxo… dividir em três grupos: melhores letras; músicas com melhores “vibes”; músicas que davam excelentes bandas sonoras. Pelo meio, Johnny Cash, que estava de férias em Dublin, quis conhecer a banda e esta desafia-o a cantar numa das músicas, e foi assim que Wanderer foi gravada e claro, teria de estar obrigatoriamente no álbum.

Após um processo de eliminação de músicas, os U2 encontram 14 que são do agrado de todos e entre elas está “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me” que tinha surgido depois de um trocadilho de Bono com Edge sobre a música de Mel Carter “Hold me, Thrill me, Kiss me”, sendo que Bono acrescenta “Kill Me” e Edge responde que é um excelente título para uma música.

Assim a banda monta o alinhamento do álbum e é aqui que todos os membros chegam a uma conclusão: há músicas que não combinam com a ideia original de fazer algo conceptual e experimental, sobretudo porque não coincidiam e destoavam da sonoridade das restantes. Assim os U2 riscam 4 músicas, sendo elas:

  • If God Send His Angels – acabaria por ser editada no álbum seguinte, POP de 97, e seria usada na banda sonora de City Of Angels
  • Last Night on Earth – acabou também por ser editada no álbum POP, foi single mas nunca teve muita relevância.
  • Wake up Dead Man – Uma música na qual  Bono começou a trabalhar em 87, mas que nunca conseguiu acaba, teve o mesmo fim das outras duas, POP.

E temos Hold me, Thrill me, Kiss me, Kill me que os U2 decidiram guardar como tema inédito para um futuro best of que estava acordado no seu novo contrato com a Island Records. Todos estes cortes foram efectuados quando o álbum já estava pronto. É possível ver na capa de Zooropa em cor púrpura as palavras “Hold Me”, “Kiss Me” e “Wake Up Dead Man”. Já na parte de trás do álbum, os títulos das quatro músicas foram substituídas pelos nomes dos produtores e engenheiros de som.
Zooropa sai em Julho de 1993 é um sucesso e a banda ganha mesmo um Grammy de “melhor álbum alternativo”.

Após o fim da Zoo Tv, a banda decide fazer uma pausa de quase 2 anos, e é então que Paul McGuinness recebe um telefonema da Warner a perguntar se os U2 estariam interessados em fazer uma música nova para Batman Forever, filme que iria sair no verão de 1995.

Paul tem então a difícil tarefa de tentar interromper o hiato da banda, o primeiro a quem ligou foi a Edge que respondeu prontamente dizendo ser quase impossível. Nesta altura, Bono e Edge estavam a escrever e compor o tema principal para o novo filme de James Bond, Goldeneye, que seria interpretado por Tina Turner. Já Adam Clayton e Larry Mullen Jr. (baixista e baterista da banda) estavam a trabalhar na revitalização do tema principal de Missão Impossível, saga que voltaria ao cinema em 1996 com Tom Cruise no papel principal.

Mas a Warner tinha feito uma boa proposta e Edge vai falar com os outros membros da banda pessoalmente. É então durante o breve encontro que Bono sugere Hold me, Thrill me, Kiss me, Kill me para a banda sonora, os restantes membros aceitam e comprometem-se com a Island Records a não lançar a música em nenhum álbum de originais até ser lançado o best-of. A banda ao rever a letra da música encontrou um trecho e estes acharam que poderia ser usado como referência a Batman e assim a escolha estava feita.

You don’t know how you got here
You just know you want out

They want you to be Jesus
Now go down on one knee

O acordo com a Warner englobava também o videoclipe, ao invés do tema de Seal (que parecia um trailer do filme) mas a banda optou por algo diferente. Entra então em cena Kevin Godley e Maurice Linnane, responsáveis por todas as imagens que passavam nas televisões da digressão Zoo TV. Com total liberdade para fazerem o vídeo, desde que tivesse cenas do filme, Godley e Linnane decidem fazer uma animação em que Bono lutava contra os seus Alter-egos The fly e MacPhisto. A animação parece quase uma BD de Batman, que também aparece nesta guerra de alter-egos! A animação acaba com Bono no hospital quase a morrer… e nesse momento transforma-se em MacPhisto. A festejar a vitória, MacPhisto transforma-se em Batman. Parece confuso, mas o vídeo conseguia jogar quase na perfeição com as cenas do filme na narrativa da animação, parecendo mesmo uma história única.

Os U2 cumpriram a sua promessa e só lançaram a música no best of 1990-2000, mas os direitos do vídeo nunca foram da banda. Pertencem à Warner, que por exemplo nunca o divulgou no Youtube. O mais provável é encontrarem a versão ao vivo no México, a única oficial da banda. Mas com uma legião de fãs dedicados é quase impossível não encontrar o video na plataforma.

Assim a 6 de Junho de 1995 chegava à MTV Hold me, Thrill me, Kiss me, Kill me, que ao princípio foi um misto de reacções, mas em pouco tempo chegou a número 2 em Inglaterra e número 1 nos Estados Unidos. Esta valeu aos U2 uma nomeação aos Globos de Ouro e um prémio da MTV EMA. A banda sonora de Batman Forever vendeu 2,5 milhões de cópias.

Já o filme teve uma grande bilheteira, batendo mesmo o recorde de mais rentável no primeiro fim de semana e só não foi o mais rentável do ano por causa de Toy Story mas… foi completamente dizimado pelas críticas.

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