Filmes que nos dão Música #6: Call Me – Blondie

Esta é a história de um filme que teve vários problemas devido ao seu tema tabu mas que teve a sorte de “apanhar” uma banda que estava disposta a arriscar tudo para singrar no seu país de origem. Esta é a história de “Call Me” dos Blondie!

Filme: American Gigolo (1980)

Em 1978, o realizador Paul Schrader recebe luz verde da Paramount Pictures para fazer um reboot do filme Pickpocket de 1959. A trama seria em tudo semelhante, um gigolô profissional que se envolve com a mulher de um senador ao mesmo tempo que uma das suas clientes aparece morta.

Paul decidiu chamar o filme de American Gigolo para distanciá-lo do filme original. O grande entrave na produção deste foi a constante mudança do actor que seria o protagonista. Vejamos: O primeiro a ser contactado foi Christopher Reeve, que recusou imediatamente mal ouviu o titulo do filme.

A segunda escolha seria o jovem Richard Gere, alguém que ia ao encontro do perfil ideal. Contudo surgiu a oportunidade de ter John Travolta, que na altura era dos atores mais requisitados devido a Grease e Saturday Night Fever… Travolta estava prestes a assinar, mas após ler o contrato, repara que há a possibilidade de nudismo e acaba por recusar.

Assim o papel regressa a Gere e neste processo todo o filme só arranca em 1979. Entretanto, a Paramount já tinha a equipa técnica contratada e dela figurava Giorgio Moroder, o compositor/produtor italiano que seria o responsável pela banda sonora do filme. Moroder era exímio no que fazia, sobretudo no que tocava a sons disco e de sintetizadores. No seu currículo, para além de filmes de Hollywood, constam produções de discos de Donna Summer, genéricos de programas informativos e televisão em geral e ainda (pasmem-se) temas de telenovelas brasileiras.

Essencialmente, os estúdios queriam que Moroder desse aquele toque dançável e que este criasse uma música original e marcante para o filme. O compositor cria então Call Me e enquanto escrevia só tinha uma pessoa em mente para o cantar, Stevie Nicks dos Fleetwood Mac.

Stevie Nicks tinha ficado conhecida pelo tema Edge of Seventeen e era a imagem que Moroder queria. Contudo, a vocalista recusou porque não se sentia confortável com o tema do filme, letra da música e, acima de tudo, não era o seu estilo. Entretanto a banda Blondie dava as primeiras cartas, com um estilo muito próprio e com uma sonoridade New Wave e Punk que era a ponte perfeita entre as músicas dançáveis da década de 70 para o glamour da década de 80. Oriundos de Nova Iorque, estes tinham uma enorme ambição e confiança das suas pretensões mas após um primeiro álbum de 1976, que foi apenas um sucesso relativo na Austrália e Inglaterra, a banda ambicionava entrar no top do seu país de origem.

Contudo, o segundo álbum teve o mesmo resultado que o primeiro. Em 1978, os Blondie contrataram Mike Chapman para produzir o seu 3º álbum e este como grande fã do trabalho de Moroder e de sintetizadores, desafia a banda para investir em sonoridades mais New Wave e menos Punk.

Assim os Blondie lançam o álbum Parallel Lines e nele o single Heart Of Glass, conseguindo finalmente “entrar” no mercado americano e logo no primeiro lugar! Não só os tinha tornado relevantes como transformou-os em estrelas mundiais e quem não ficou indiferente foi Giorgio Moroder que viu em Deborah Harry (vocalista dos Blondie) toda a presença que desejava com Stevie Nicks.

Moroder agendou então uma reunião com a banda e todos concordaram quando Deborah disse que queria reescrever a letra da música e quando o compositor disse que só queria o videoclip com a vocalista. A banda só pedira a Moroder para que a música fosse outro grande sucesso, pois tinham medo de se tornar numa one hit band. Assim, a música usa a batida original de Moroder mas é remixada pela banda e conta com uma prestação inconfundível de Deborah. Foram lançadas duas versões, uma de 3 minutos e a original de 8 minutos que tinha o intuito de ser tocada em discotecas.

No videoclip era suposto vermos um lado sensual de Deborah, mas se há algo que ele transmite é o oposto… É notório que esta era um peixe fora de água e então, para disfarçar, o video recorre a gravações de concertos da banda. Posto isto, decidem ainda cortar a duração do video para 2 minutos e meio. A Paramount adora o resultado final e decide usar o tema numa cena de sexo do filme. E assim, no dia 1 de Fevereiro de 1980, o single é colocado à venda no mesmo dia de lançamento do filme.

Call Me torna-se o segundo single nº1 da banda nos Estados Unidos e manteve esta posição por 6 semanas seguidas, acontecendo o mesmo em 50 países diferentes, tornando-se então o single mais vendido de 1980. Após o sucesso, Moroder é convidado para produzir o próximo álbum da banda, convite que aceite. Contudo, ao chegar ao estúdio depara-se com uma banda bem diferente… O estrelato tinha afetaado o seio do grupo.

Segundo o produtor, no primeiro dia de gravações, o teclista e o guitarrista envolveram-se em pancadaria, fazendo com que Moroder ligasse ao manager da banda a dizer que se demitia. O filme teve um sucesso relativo, e serviu sobretudo para impulsionar a carreira de Richard Gere. Mas este é um caso em que a música superou o filme. Giorgio Moroder voltou às grandes produções de Hollywood como Never Ending Story, Flashdance, Scarface, Top Gun e Beverly Hills Cop. No que à produção de álbuns diz respeito, este é convidado pelos Daft Punk em 2013 para produzir Random Access Memories que se tornou um sucesso global muito devido à sonoridade dos anos 70 e 80. Os Blondie lançariam mais dois álbuns até 1982, altura que as fracas vendas de bilhetes e a doença auto-imune de Chris Stein (membro da banda e namorado de Deborah na altura) obrigam a uma paragem. O regresso só iria acontecer em 1999 com o êxito Maria!

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