14ª Edição do MotelX: Num ano especial, o terror permanece de pedra e cal

O MotelX está de volta com a 14ª edição, mesmo num ano assolado por uma pandemia. Apesar das circunstâncias, o festival internacional de cinema de Terror realizou-se com todas as medidas de segurança para que os espectadores possam assistir a grandes filmes da melhor forma. 

Os vencedores das secções competitivas do MotelX foram conhecidas no dia 13 de setembro, sendo que a Melhor Curta de Terror Portuguesa 2020 foi “Mata”, de Fábio Rebelo. Já na competição internacional, “Pelican Blood”, de Katrin Gebbe, venceu o Prémio Melhor Longa de Terror Europeia 2020.

A 15ª edição vai acontecer em 2021 de 7 a 12 de setembro.

Deixamos-te algumas críticas dos filmes que assistimos nesta edição:

Antebellum

Se há filmes que obrigatoriamente tinham de estrear em 2020, Antebellum é um deles.

O filme começa com a célebre frase de William Faulkner: “The past is never dead. It’s not even past”, mais do que o significado literal a frase indica-nos que chegamos a 2020 e ainda temos muito a aprender, sobretudo quando temos acções e preconceitos que persistem em durar desde dos tempos da escravatura.

É então que o cinema está encarregue de criar sátiras sobre um assunto tão delicado, onde o expoente máximo é Get Out de Jordan Peele e podemos mesmo afirmar que Antebellum é o aluno fiel do filme de 2017.

Antebellum, ao contrário de Get Out vai mais ao cerne da questão racial. Não é tão envolvente ou original mas expõe mais o quão é a ferida na sociedade.

O filme conta-nos a história de Veronica Henley (janelle Monáe) uma autora bem sucedida na actualidade, onde tem uma família feliz mas que de repente se vê presa numa realidade crua e horrível em plena época de escravatura.

O filme vive mesmo desta junção de mundos e quer mostrar o que era a escravatura e as suas privações, é objectivo, é violento mas tenta não cair em exagero. Ao mesmo tempo este quer transmitir a mensagem de união e de igualdade e resiliência e isto tudo “sobre os ombros” da actriz Janelle Monáe que tem uma excelente interpretação, quase como se de uma heroína se tratasse.

Antebellum é quase um filme manifesto, não é político mas está carregado de simbolismo e acima de tudo chega na altura exacta, ao ponto de pensarmos que alguém nas filmagens já sabia como ia ser 2020. O problema é que o filme vai perdendo o brilho à medida que se vai desenvolvendo e algo que parecia complexo vai tornando-se em algo demasiado simples e não ficamos com nenhuma questão no ar.

O filme aposta sobretudo em “brincar” connosco devido à maneira como está montada a narrativa. Contudo esta “brincadeira” pode fazer com que a conclusão seja para muitos de nós algo genérico e vazio.

Não vai agradar a todos a conclusão nem o plot-twist, o tema merecia algo mais profundo e com alguma substância e sim sair do cinema com questões ou pelo menos com algo que marque.

Começamos também a verificar que está a tornar-se um padrão os produtores de Get Out fazerem sempre um plot-twist, algo que M. Night Shyamalan fazia/faz recorrentemente nos seus filmes e que tornou-se repetitivo ao ponto de neste momento já ser cansativo e expectável.

Antebellum pode ser enganador para muitos que o vão ver, é simples e eficaz mas isso para muitos de nós não vai chegar. Poderia ser melhor, poderia ter explorado mais e sobretudo poderia ter cenas marcantes. Contudo é muito bem montado, visualmente está excelente e não são muitos os filmes que nos deixam sem dúvidas a pairar no ar.

  • 6/10

Malasaña 32

Coube a Malasaña 32 a hercúlea tarefa de ser o filme da cerimónia de abertura da 14ªedição do Motelx.

Para quem gosta de terror sabe que o cinema espanhol tem sido uma autêntica caixa de surpresas, é cada vez mais notório a popularidade, desde Rec, passando por Verônica (que foi bastante elogiado na Netflix) a este Malasña 32 que teve direito, através da Nos Audiovisuais, a estreia em salas de cinema de quase todo o país. 

Baseado em factos verídicos, Malasaña 32 conta-nos a história de de uma família que em 1976 decide mudar-se do campo para a capital Madrid em busca de um futuro melhor. Para isto hipotecou tudo em detrimento de uma casa que era um autêntico achado em termos de preço.

O que a família não sabia é que esta estava assombrada por uma antiga inquilina!

O filme adopta a premissa e elementos de muitos clássicos de terror, é notório desde cedo que estamos perante um filme de casa assombrada. Mas ao contrário de muitas produções de hollywood há um tratamento e escrutínio como e quando usar todos os clichês deste género.

Não é surpreendente, mas está longe de ser defraudado, estamos perante um filme que segue bem as regras e consegue uma boa dose de Jump-scares, estas bem elaboradas devido a um excelente jogo de som e imagem.

Os únicos pontos menos conseguidos do filme são as motivações do espírito maquiavélico, pois a explicação e a conclusão são demasiado simples ou pouco exploradas e o facto do filme seguir tanto um By The Book do género fez com que o produto final não fosse tão ousado e por consequente mais marcante, o que é pena pois facilmente poderia destacar-se.

Um paralelismo perfeito com este filme é Annabelle 3,é um bom filme mas não traz nada de novo. A falta de ousadia faz com que não haja uma cena de terror que sobressaia, mas Malasaña 32 está longe de ser um filme mau, bem pelo contrário é competente provoca sustos e está muito bem escrito e montado para além de ter interpretações muito bem conseguidas… a questão é que facilmente poderia ter sido muito melhor, bastando ser um pouco mais audaz!

  • 6.5/10

Sputnik

Directamente da Rússia para o Motelx 2020 chega-nos Sputnik, filme que concorre ao prémio de melhor longa-metragem europeia.

Facilmente poderíamos classificar Sputnik como a versão russa do clássico Alien o 8º Passageiro, é notório que este é forte inspiração do realizador Egor Abramenko na obra prima de Ridley Scott, contudo há elementos inovadores que fazem este filme destacar-se de ser apenas uma mera cópia.

Em plena guerra fria, dois cosmonautas regressam de uma missão especial, quando são surpreendidos por algo de origem alienígena. Ao chegar à terra, apenas um cosmonauta permanece vivo…mas este traz algo consigo.

Para tentar perceber o estado mental deste, uma força secreta soviética convida uma psicóloga de métodos poucos ortodoxos de maneira a extrair o máximo de informação possível, o problema é que esta não sabia do ser que o cosmonauta transportava consigo.

Apesar de ter um ritmo lento,o início de Sputnik está bem construído e é sólido, muito devido aos diálogos intensos entre o cosmonauta e a psicóloga. A química entre estas duas personagens é tal que  até nos faz esquecer alguma falha que haja em qualquer explicação mais complexa.

O problema é o que após as sequências de diálogo o filme começa subitamente a perder identidade, onde passa a um ritmo frenético de acção e algumas cenas de autênticos banhos de sangue, o que transforma a boa narrativa que o filme estava a ter em algo mais linear.

É mesmo notório o bloqueio criativo em detrimento de cenas de violência e de repente parece que estamos a ver um filme bem diferente do que aquele que tinha uma estrutura sólida ao ponto de termos um Plot-twist no final que apesar de não sabermos, é quase irrelevante para o espectador, quando o que se pedia era uma reacção de espanto. 

Sputnik vale sobretudo pelas cenas de interrogatório, não que as sequências de acção ou a conclusão sejam más, mas faltou sobretudo uma transição menos abrupta quando o filme começa a ganhar um ritmo alucinante e assim parece que temos quase dois filmes diferentes em um.É competente tem bons efeitos especiais, mas poderia ser mais, muito mais!

  • 5.5/10

Butt Boy

Uma verdadeira lu(bu)fada de ar fresco… Se há algo que sentimos com o passar dos anos no cinema é que são cada vez mais raros os casos de estarmos perante algo verdadeiramente original. Exemplo disso foi o filme de abertura do Motelx, Malasaña 32, que é bom mas nada original. Também problemático é a  inesgotável panóplia de remakes e reboots que estão a tomar conta de todos os estúdios de Hollywood.

Assim, é sempre de louvar quando aparece algo refrescante e completamente original e Butt Boy é isso mesmo e todo o crédito vai para Tyler Cornack, que é responsável pelo argumento, realização e ainda protagoniza uma das personagens principais do filme!

O filme tem uma premissa muito simples, Chip Gutchell é um homem com uma vida demasiado rotineira, até ao dia em que vai fazer o exame da próstata. Durante o exame, Chip sente um prazer de tal forma pela penetração anal que começa a ganhar o estranho hábito de introduzir tudo o que encontra pelo ânus acima… e quando nós dizemos tudo…é tudo.

Para controlar este “apetite”, Chip começa a frequentar reuniões de alcoólicos anônimos e tenta conter o seu problema como se de dependência de álcool se tratasse. Passado 9 anos, nestas reuniões, Chip conhece o detective Russel B.Fox, onde se torna o seu o mentor. Russel é destacado para um caso de uma criança desaparecida no trabalho de Chip e a partir daí as coisas entre os dois começam a ficar estranhas, pois o detective acredita que Chip está envolvido.

O filme parece apenas mais um caso de polícia normal, até que Chip revela o seu segredo e isto é o que faz de Butt Boy especial. O filme não tem problemas nenhuns em mostrar do que se trata e acima de tudo o filme mantém-se sério quando é quase impossível para nós, espectadores dissociar algo tão non-sense e mantermos uma postura séria. É incrível como os actores agem e o filme continua a contemplar-nos com diálogos intensos e sérios que servem sobretudo para mostrar o amor e carinho que tiveram por este projecto. 

A genialidade deste filme é derivada da sua originalidade e sobretudo pela maneira como está montada toda a sua vertente de Thriller e aguenta firmemente o que facilmente podia descambar.

É sem dúvida absurdo mas acima de tudo o filme é extremamente competente, é claro que usa e abusa de clichês e há certos momentos em que ficámos confusos com a narrativa.

Butt Boy será um filme de culto, como aqueles de série B que iam directamente para o videoclube, mas no final o que ressalva é a dedicação com que foi feito o que o torna algo especial… adoraríamos um dia ver a cara dos actores a lerem o guião!

  • 8/10

Relic

Desde a apresentação desta 14ª edição do Motelx que os organizadores repetem uma frase: É um orgulho ter Relic no festival, suscitando grande curiosidade entre nós.

Poucos filmes podem gabar-se do feito de Relic, longe de ser um filme de terror convencional, é um filme assertivo e envolvente mas que consegue ao mesmo tempo ser voraz nas cenas tensas.

Com uma premissa simples, o filme conta-nos a história de Kay e Sam, mãe e filha, que vão em busca da avó desaparecida. Esta regressa a casa sem um arranhão…mas algo não está bem, pois um ser paranormal apoderou-se da frágil senhora.

A realizadora Natalie Erika James montou o filme de forma exímia, porque à medida que vamos avançando este não deixa de ser simples mas cada vez mais agonizante e desesperante, ao ponto de termos sequências de terror capazes de ombrear com qualquer clássico do género.

Para “ajudar”, todo o ambiente do filme é por si só pavoroso e intimidante. Claro que a juntar a isto temos interpretações competentes das actrizes.

Relic não é só um filme de terror, seria o crime classificá-lo como tal, é também um drama familiar em que um acontecimento pode transformar todas a relações, explora a fragilidade e a insegurança. É então que entra em cena toda a vertente psicológica do filme, onde a actriz Robyn Nevin (a avó desaparecida) tem uma excelente interpretação de uma pessoa que vai perdendo gradualmente a memória e ficando cada vez mais senil.

É então que começamos a ter a real noção da mensagem que o filme quer transmitir, é uma metáfora sobre a maneira com que tratamos a nossa família, sobretudo os membros mais idosos e todas as decisões que temos de tomar à medida que estes vão ficando mais velhos e dependentes de outros.

As cenas de terror intensas são bem conseguidas e o filme deveria ter usado e abusado bem mais destas, sobretudo para contrabalançar o drama familiar e aqui está o principal problema de Relic.

Se o filme quer ir por uma vertente de drama familiar, exceptuando Edna (personagem de Robyn Nevin) as outras duas personagens são bastante lineares e transmitem pouca emoção.

Belisca o filme mas não faz dele mau, atrevo mesmo a dizer que Relic vai-nos fazer mossa, sobretudo vai fazer-nos reflectir sobre a nossa família e a maneira como nos tratamos uns aos outros. E este pode ser um tipo de terror que nos atinja mais do que Jump-scares!

  • 7/10

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