Home FilmesCinema “A Rainy Day in New York”: A vida é como uma viagem em económica, nem sempre é confortável

“A Rainy Day in New York”: A vida é como uma viagem em económica, nem sempre é confortável

by João Pedro

Embora mantenha o seu estilo bem vincado em tudo o que faz, Woody Allen não assina uma obra de alto relevo desde “Blue Jasmine” (2013). A longa-metragem firmou uma abordagem insidiosa e refrescante do cineasta, porém, desde aí, Allen entrou num modo de piloto automático habitual na concepção dos seus filmes. “A Rainy Day in New York”, o seu trabalho mais recente, proporciona um momento bem passado, mas não oferece nada de novo. 

Ao longo dos anos, o cinema tem sido a terapia de Woody Allen. Com um filme a ser lançado por ano (regra geral), quase como norma de subsistência, o realizador começou a sua carreira no final dos anos 60. 

Era uma época muito diferente de hoje. Também foi definida pela mudança, pela superação de códigos antigos e pela chegada de novas vozes. Mas aqueles olhares, que eram quase subversivos, agora estão desatualizados no quadro de uma indústria que procura reverter outras realidades.

Agora são levantadas questões de representação social, discriminação, media, e repercussões políticas, a ponto de ser cada vez mais difícil julgar um filme sem ponderar todos estes tópicos. 

Inequivocamente, foram estas questões que fizeram com que a estreia do novo filme de Allen fosse adiada nos cinemas dos Estados Unidos da América. Embora mais tarde tenha sido absolvido pela justiça, o cineasta voltou a estar envolvido num caso polémico, e a sua reputação ficou manchada. 

O eterno debate sobre a dissociação entre a criação e o criador parece admitir apenas uma resposta no clima em que vivemos, visto que as posições de julgamento abundam em vez de existir uma reflexão subtil. Embora Allen pretenda simplificar o caso, exprimindo apenas as suas opiniões através do cinema, os seus elementos outrora rebeldes e refrescantes parecem agora indevidamente conservadores.

Baseado nas mesmas questões, e sob as mesmas punições de toda a sua vida, o realizador parece efetuar uma abordagem às novas gerações, ao narrar a história de três jovens que se comportam como os seus personagens antiquados.

© Gravier Productions, Inc.

“A Rainy Day in New York” recorda algumas das suas melhores comédias, mas mais no caminho do que no resultado final. Aqui, Woody Allen usa Timothée Chalamet, Elle Fanning e Selena Gomez como um triângulo amoroso para assinar uma crítica ousada ao mundo do cinema e à indústria de Hollywood, ao qual sabemos que nutre um ódio de estimação. 

O cineasta usa Nova Iorque como pano de fundo para essa sátira ao mundo das estrelas, o que, graças a um trabalho de fotografia incrível por parte de Vittorio Storaro, faz com que exista esse amor maior pela cidade. 

Gatsby Welles (Timothée Chalamet) e a sua namorada, Ashleigh (Elle Fanning), decidem efetuar uma visita a Nova Iorque durante um fim de semana, sob o pretexto da entrevista que ela vai efetuar a Roland Pollard, um realizador de cinema que está a passar por um crise existencial. 

Primordialmente, Ashleigh é a catalisadora da história, porque a estadia em Nova Iorque com o namorado deriva da entrevista para o jornal da universidade. A entrevista acaba por guiá-la ao encontro de outras celebridades, como um argumentista (Jude Law) e um ator (Diego Luna), e todos têm um interesse claro por ela. 

Inicialmente, a jovem pretende focar-se somente no trabalho, mas acaba voluntariamente por cair na armadilha, especificamente quando é seduzida pelo ator. Essa cena é bastante discutível a nível de argumento, porque Ashleigh parece abandonar a sua inteligência presumida, com Allen a acompanhar este despojo da personagem. 

Efetivamente, acaba por oferecer um retrato de insulto à inteligência de quem pensávamos ser a heroína da história, que fica reforçado na última conversa que tem com Gatsby. Por conseguinte, no final, é reforçado o olhar atordoado e simplista em torno da jovem. 

Gatsby planeia um fim de semana perfeito em Manhattan, mas Ashleigh não consegue escapar daquele circulo de glamour “hollywoodesco”. 

De repente, sozinho, encontra a irmã mais nova (Selena Gomez) da sua ex-namorada, e na primeira cena em que aparecem juntos, precisam de simular um beijo para uma curta-metragem, que um amigo em comum está a realizar. A partir desse momento, adivinhamos com quem é que o protagonista vai acabar e, em seguida, esse resultado é o menos anti-climático, porque torna-se inevitável sem qualquer suspense anterior. 

© Gravier Productions, Inc.

Timothée e Fanning recriam todos os tiques e os traumas a que o cinema de Allen nos acostumou ao longo dos anos, mas tudo muda quando a personagem de Gomez entra em cena; um pequeno fluxo de ar fresco que faz com que apreciemos o enredo, e que acaba por ser um dos melhores aspectos do filme.

Os costumes da burguesia, o seu padrão de vida e os hábitos muitas vezes insanos, são lugares comuns na filmografia de Allen, e aqui é um dos focos nos quais a narrativa desta curiosa comédia romântica está concentrada. Ou seja, é capaz de ser tão pedante como adorável. 

A corrente do modernismo, e o que é conhecido como “hipster”, é a origem de “A Rainy Day in New York”, e Allen, um realizador que raramente escolhe adolescentes como protagonistas dos seus trabalhos, efetua aqui uma abordagem coesa e tranquila daquela que pode ser uma tarde bem passada no cinema. 

Por mais questionáveis ​​que possam ser as decisões de script, a história embala o público inevitavelmente por causa da fórmula infalível e do bom ritmo em que as várias aventuras ocorrem, uma vez que os diálogos também retêm a sua graça e fluidez. 

A fotografia de Storaro combina bem com o estilo tradicional de Allen, baseado nos planos sequenciais dos movimentos programados. Não existe espaço para qualquer tipo de improvisação ou risco, e essa é a principal reivindicação de um filme consciente do seu público leal. 

Embora não apresente algo inovador, Woody Allen efetua a metáfora a uma equação matemática: a sorte é igual à oportunidade mais talento. Contudo, se formos um Gatsby Welles, a soma da oportunidade e do talento deve ser dividido pelo acaso. O resultado é sempre diferente, porque o que Woody Allen não contempla na sua equação é a própria cidade de Nova Iorque.

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